sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Fábula ou na contra-mão dos sentidos...

Alice. Lá estava Alice. Só Alice. Alice só. Ali se via no espelho. Alice via-se no espelho. Analisava-se os pormenores desajeitamente caprichados. Mudar a cor das mechas? Ou talvez tentar um novo passo? O espelho, por sua vez, seguia frio e reflexivo.
Alice passou os dedos da mão direita sobre a franja, tentando ajeitá-la, apenas para vê-la retornar ao mesmo lugar.. seria o mesmo? Agiu novamente, para obter a mesma reação.. Alice deu-se por vencida.
Suspirou... assim como a Alice do espelho...
Alguém a gritou lá de dentro. Dentro de onde? Da casa.. mas ela ignorou, era experienciada em ignorar. Ignorava os professores.. os locutores.. os pais.. a maior parte dos conhecidos.. até mesmo aquele cão chato que insistia em latir quando entrava em casa... se ignorar era uma arte, Alice era uma artista. Austista. Artista.. sorriu por um segundo tão breve, que mal viu o próprio sorriso no espelho.. Alice não era de sorrir. Guardava os sorrisos para os momentos devidos. Mesmo assim alguns escapavam dos ovários... e ela não se importava muito, desleixada em tantas coisas, negligenciava qualquer preocupação mais profunda...
O grito lá de dentro da casa que diziam ser de Alice, mas a bem da verdade não era, voltou a soar.. como um sino.. como na Igreja, aqui era a casa de um Deus e demônios como Alice tinham dificuldades de ficarem confortáveis, mesmo se fossem sindicalizados...
- Alice??? ALICE??!??! - o barulho que se seguiu foi o dos murros contra a porta que faziam até mesmo o espelho tremer, tornando a imagem de Alice difusa e imprecisa, de contornos indefinidos.. como Alice.. mas lembre-se, Alice era uma artista..
Baixou os olhos para as mãos pequenas, querendo com as próprias mãos acabar com tudo aquilo. Não por não suportar.. suportar não é uma condição, é um estado.. queria-o simplesmente pela possibilidade de fazer tudo diferente. Tudo novo. Não ser Alice. Ser talvez Aline. Ou quem sabe Alícia.. e até mesmo, Bruna... Alice tinha certeza de que seria uma excelente Genoveva.. mas Alice não era artista de certezas e, mal sabia, que não conhecia nenhuma Genoveva...
- A SENHORITA QUER FAZER O FAVOR DE DESTRANCAR A M-E-R-D-A DESSA PORTA?!!!! - retumbou a voz da mão cansada de golpear a porta... Alice só aspirou. Expirou. Estava pálida... era sempre pálida, pele alva com pequeninas sardas esporádicas a perturbar a brancura de sua imensidão. Isso destacava os lábios finos e que não eram vermelhos, como diziam ser vermelhos os lábios.. aliás Alice nunca vira um vermelho que satisfizesse suas espectativas.. e ela tinha tantas espectativas, que esmeradamente esperava. Destacavam-se também os olhos cotidianamente castanhos.. castanhos como o céu cinzento de uma grande metrópole.. sobre eles dois finos riscos chamados sombrancelhas. Quando pequena.. menor que agora ao menos.. Alice gostava de arrancar pêlos das sombrancelhas.. sua mãe sempre a recriminava por isso.. e como tudo que é repreendido, Alice parava para prosseguir na solidão de sua intimidade.
Isso a fez pensar em fumar um cigarro. Tirou do bolso a carteira de alguma coisa light. Light? Era quase uma piada... fumaça light... ao menos o filtro era branco. Tinha o cigarro mas não tinha fogo.. e não poderia sair ou teria de lutar com a besta-fera que guardava a porta.. tanta vida, tantos desafios.. fitou-se no espelho...
- Tem fogo?
- Não, só cigarros..
- Então estamos na mesma.
- Pois sim..
- E de que me serves nessa prisão?
- Da serventia que me deres..
- Não serve pra acender o cigarro. - ela disse pondo-o entre a ponta de todos os dedos reunidos como se fosse um anel de casamento..

- TEM ALGUÉM AÍ COM VOCÊ?!?? MENINA.. - a voz parecia buscar alguma calma inexistente - Abra a porta, Alice.. prometo que não vou fazer nada..

- Promessas.. - Alice pensou para então falar - E o que tem desse lado aí?
- O mesmo que aí..
- Mais do mesmo?
- Sempre mais do mesmo..
- Não era isso que eu queria ouvir.
- Sinto muito..
- Sente nada.
- O nada tambem o sinto..
- Eu só sinto isso.
- O nada? Não.. não.. sentes mais..
- Não. - E foi tão retumbante aquela negação que findou qualquer possibilidade de diálogo.. Alice virou as costas para o espelho, colocou-se de joelhos e esperou que suas asas começassem a sangrar...

12 comentários:

Martinha disse...

Gostei. :) *

Borboletanêmica. disse...

e sangrou,sangrou tanto,tanto!
tanto...

tayná disse...

alice, nome bonito.
alice, me lembra de dor.
alice, um refúgio calado.
alice, busca cega do amor.

ela não seria melhor se fosse aline, ou qualquer coisa que começasse com 'a'. eu já rimei tanto sofrimento que hoje, de finge-dor, não largo mais.

as asas crescem, rasgando a pele alva. manchando com um vermelho admirável, o que resta de vida morta.


lindo.

Patrícia Lino disse...

Poeta, meu querido Poeta.
Não trarão mais do que sangue, as pobres asas?


Hey, admiro-te.

Camila Queiroz disse...

me coloca em uma mochila e me leva embora nessa estrada que aparece na foto.
me embriague com teus textos...

Borboleta Endiabrada disse...

Adorei....;)
Beijinhos endiabrados

nenúfar disse...

também "senti" isto. apenas sentir. obrigada pelas palavras bonitas ;)

Alexandra Mendes disse...

tão lindo...
eu imaginei o texto na minha mente..

Um beijo!*

Street Fighting Man disse...

psicadélia!

CatWorld disse...

gostei e que texto penetrante, arrepiante!beijoca!

Borboletanêmica. disse...

ah chama está arrefecendo(ela não pode deixar ela não pode deixar),e esse tempo é manso demais,quase não passa!
que volte logo,logo,meu canto,de colibri,sim.
mas meu bem,que ela seja o meu inferno(e é)me esquentando,porque aqui dentro está inversno,me congelando...
(adoro essa frase que fiz em uma época pra dar pra alguém que eu ficasse afim,dito) :S

Borboletanêmica. disse...

concordo,mas,às vezes demora tantos anos pra passar(disso eu sei,mas conheci outrem)que parece que vai ser eterno.
e não é.
fica só lembranças,e até a tortura que por algum motivo nosso amor nos fez chorar intensamente,vira sorrisos ao lembrar.
mas demora,demora,demora.
obrigada. :)