terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Perspectivas



Murcham as flores Desbotam as aquarelas Apagam-se as fotografias Continuam a haver dores Algumas sequelas Inconstantes frentes frias Sempre mais do mesmo Não era isso que você queria ouvir Mas no porvir Só pode vir A cada quero ir A louca conjunção Da sua condição Onde o caos te pega pela mão E a ordem sopra movimentos Temos de ir saboreando o vento O fazer no reinvento Curtindo a paisagem Trabalhando na vertigem da viagem Pois chegar é bobagem Teleologia antiquada dos antigos Perdidos no próprio umbigo Mas tenho cá comigo Que o único abrigo é o mundo A única possibilidade é a vida Posso ser raso, largo, profundo Pode ser preta e branca ou colorida Devaneios de um mero vagabundo
Mas no fundo
Fecundo Curtir ainda é minha saída preferida...

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Sobre ser pai 5

Domingo chegamos de viagem. Já era noite, Ana não dormiu no voo e estava bem cansada. Mas eis que chegando em casa, ela reconheceu o lar. Foi aos brinquedos da sala e esparramou todos, pegando um por um. Depois foram os livros. Pegava, trazia até mim e pedia que eu mostrasse.
- Esse! - Ela gritava com entusiasmo.
Depois foi a vez de tudo que estava no quarto.
Eu adoro viajar, mas assim como minha filha, adoro voltar pra casa...

Há alguns anos eu já não tinha entusiasmo pelo mar. Praia pra mim era cerveja, sombra, petiscos e um livro (ou trance... rs). Esse ano eu entrei no mar praticamente todo dia. Algumas vezes, cinco vezes no mesmo dia. Sentei na beirinha. Medi o ritmo das ondas com os passos da Ana. Tomei onda na cara pra ela passar por cima. Pedi desculpas a Iemanjá para apresentar minha criança.

Já são 1 ano e 8 meses de encantamento, 1 ano de parceria entre nós dois desde o fim da licença da Dé. Em fevereiro, ela começa na creche e eu tenho que terminar minha tese, mas o maior projeto da minha vida segue a pleno vapor...

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Depois do fim



Quinze horas atrás ela era minha
Na verdade nada nunca foi meu 
Ela era tudo que eu tinha
Era
Ela
Eu
Tolo de achar que tal escarcéu 
Tolo de achar que um céu é teu
Inferno
Ao menos há calor
Mas pode ser gélido
Depende do seu pavor
Mesmo se nada é eterno
Nem ser lido
O corpo despido
Coisas do vivido
Entre tanto que podia ter sido
Foi o que houve
E se não há
Tanto por cá
Pois nada nunca, quiçá
Quem são
A espiar pelo vão
Os sãos
Ouçam ou são
Delírios
Nesse mar de lírios
Pra cada martírio
Um mar te rio
Dez fez
E desfez
Com brilho dessa tês
Essa ultima vez
A tal desilusão...

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

No fim


No fim
Ela chegou pra mim
E disse assim
Tenho que ir
Te quero tão bem
Que preciso partir
Tomar esse trem
Encontrar outro além
De você me despir
E eu quis segura-la
Explicar como era rara
Mas faltou-me a fala
Foi daquela dor que cala
Que até o tempo para
Que faz do jardim
Um Saara
E quando eu vim
Já era tarde
Mesmo se o peito ainda arde
Mesmo se depois fui puro alarde
Na hora
Só sofri
Me vi ali
A dor de quem chora
E devora cada lágrima
Esquece a rima
No peito essa espora
Na vida essa esgrima
As grades não lima
Apenas um querer que parte
Porque a vida tem tanta arte
Mas nem toda arte é pra vida

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Antes do fim

Faz tempo que não escrevo
Não sei se assim à deriva, devo
Sou dos que procuram quatro folhas no trevo
E graça na musa
Não há o que viva
Se ela não me abusa
Se meus caminhos não cruza
Se não me prende nas tranças
Me transa
Sem esse algo em mim
Que por ela balança
Tudo cansa
Estou assim
Preso na dança
Dos lábios carmim
Desse sabor de sem fim
Dos desenhos da tua forma
Mesmo se poeta não tem norma
Tem teu nome
Na minha fome
Na minha carne
Na minha sintaxe
No meu verso...

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Queria você aqui ou Convite prum aniversário

São tantos anos
Tantos festejos insanos
Tantos mirabolantes planos
Que eu queria que você estivesse aqui
É tanta gente
Tanta estrela cadente
Tanta loucura inconsequente
Que eu queria que você estivesse aqui
Tantos amigos
Tanto que levo comigo
Tanto ririr na cara do perigo
Que eu queria que você estivesse aqui
Tanta birita
Tanto chá de fita
Tanta prosa entre a lombra bonita
Que eu queria que você estivesse aqui
Tantos cogumelos
Tantos lissérgicos castelos
Tantos submarinos amarelos
Que eu queria que você estivesse aqui
Tantas rodas abraçados
Tantos Toca Raul bradados
Tantos camaradas por todos os lados
Que eu queria que você estivesse aqui
É tanta história
Tantos seres mitológicos em plena glória
Que arrisco dizer de memória
Estás sempre, vossa excelência, por aqui...

domingo, 17 de julho de 2016

Saudades de um sopro


Tava com saudade de chamegar você
Esfregar minha vontade nos seus contornos
Mordiscar seus suspiros
Enroscar nos seus dengos
Me enfiar nos seus assanhos
Rebolar com suas manhas
Penetrar seus quereres
Prolongar suas vontades
Explorar seus cheiros
Me misturar no seu molhado
Dar um tapa na sua chama
Tirar seus pés do chão por maldade
Morder seu queixo num ápice
Beijar você num gozo
Beijar
Beijar
Olhar
Soprar
Um sopro...

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Sabe ou Par

Quem sabe
O que o outro sabe
Mal sabe
Que não se sabe
Sequer o que se sabe
Porque em nós mesmos
O nós não cabe
Estamos a esmo
Às vezes aos pares
Nunca somos singulares
Mesmo se parece que sabe
Tudo isso que a gente sabe
Nunca se sabe
Se no outro cabe
Se no outro acaba
Sinuosa capa
Só sei que nada sei
E até nisso eu errei
Daí desassosseguei
Mas ainda levo da vida muito tapa
A gente derrapa
Tropeça
Desconversa
E quando não vê logo pensa
Que a vida é imensa
Mesmo se o crime não compensa
Não se está aqui pela recompensa
Mas pelo caminhar
Que é melhor com um par
É bom ter com quem conversar
Alguém que em nós não cabe
Sabe...

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Caçada


Ele saiu a procurar
Não sabia o que poderia encontrar
Muitos diziam que era uma floresta encantada
Um reino das fadas
Mas alguns preferiam falar
Que ali não havia nada
Era terra assombrada
Perigosa de passar

Ao chegar lá
Se é que esse lá há
Ele viu um rápido movimento
Por um breve momento
Um segundo quiçá
E farejou no vento
Um aroma que desfez o desalento
Que em seu peito sempre está

Correu atrás daquilo
Mesmo sabendo que poderia parti-lo
Não se importava
Era justamente o que buscava
E diria fi-lo porque qui-lo
Enfrentaria o sibilo
Que seu peito desafiava

Ao se deparar com ímpar beleza
Teve convicta certeza
Era tudo que ele queria
Era uma luminosa magia
Que o levava além da crueza
Essa dos habitantes o dia-a-dia
Sempre forjado na monotonia
E, assim, o caçador fez-se presa...

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Carta para Hélio Lopes

Salve pai... hoje você faria 67 anos... já são quase 6 anos, nego véio, cada dia é mais um dia de saudade. E ainda assim de um tempo pra cá com novos detalhes, pois já tem 1 ano que aprendi a ser pai e entender ainda mais o pai que você foi. É uma grande viagem essa tal paternidade, mas estou crescendo muito nesse processo. Eu aprendo tanto todo dia.
Você ia amar a Ana, pai. Ela é o máximo. Você ia achar ela o máximo, assim como eu acho, sendo suspeito como eu sou. Acho que você ia estar aqui o tempo todo. Ela tá andando. Dá uns 10 passos e cai de bunda no chão, mas acha o maior barato. Nós trocamos duzentas ideias sem que ela pronuncie uma única palavra. Ela me convence a usar a língua de bebê dela. Ela é o clone da Dé e de mim tem só o amor, mas é tanto amor que mal cabe na pessoinha dela. Com a licença do doutorado, estou imerso na vida de pai tempo integral. Nasci pra isso, porque aprendi com o melhor. Tô vivendo cada aprendizagem, cada sorriso, cada manha dela e me encantando ininterruptamente.
Ela é super tranquila e gosta de todo mundo. O Guto vem me ajudar quando eu preciso e almoça sempre aqui. Ele e a Ju são tios super babões, assim como os irmãos da Dé. E os
avós então? Acho que você consegue imaginar...
O doutorado segue. Qualifiquei e agora tô tentando prosseguir com as entrevistas.
Ah, encontrei com a tia Valdete hoje. Ela tá cuidando de uma idosa aqui na 307 sul. Vou levar a Ana pra tomar sol com elas na sexta.
No geral, segue a crise. E quase ninguém tá aprendendo nada com isso na minha opinião.
O Marley operou da coluna... teve uma hérnia. Tá em recuperação agora, mas o processo é lento.
O Flamengo se livrou do Wallace, tenho certeza que isso te agradaria...
Na sexta tem aniversário da Helena, filha da Gabi... vamos lá prestigiar e ver o povo.
Em agosto, vou pra África do Sul de novo visitar o Paulinho e a Mariana.
Vou sentindo essa saudade perpétua e cotidiana enquanto padeço no paraíso, negão. Wish you were here...