quarta-feira, 12 de junho de 2019

Eu sei que não te mereço 
Que a gente tá longe do começo 
Que a vida parece do avesso
Mas entre alguns tropeços 
A gente sempre é feliz
Mesmo se não é sempre que a gente diz
Eu amo você imensamente 
Sou um bobo inconsequente 
Que fala o que sente
Que sempre pede que você tente 
Me amar mais um pouquinho
Pois é inigualável nosso ninho
Porque só serve o seu carinho
Porque mesmo entre espinhos 
Você é a flor do meu viver
Sem você eu não saberia ser
Você me cura quando estou a padecer
Você me lembra quando estou a esquecer
Que amar é fundamental para o nosso alvorecer
Daí que mesmo perdido
Tão indefinido
Entre tanto que foi vivido
É você que dá sentido 
Pra arte do meu caminho

sábado, 1 de junho de 2019

Carta para Hélio Lopes

Oi pai... como vai? Hoje, você faria 70. Que grande dia. Tão grandioso, que o Gustavo, seu neto, faz 1 ano. O Guto acertou em cheio nessa. Melhor presente possível. Tô aqui pensando como foi pra Dona Hilda e seu Valdemar receberem o segundo filho. Eu vou parar aqui pelo segundo mesmo... Com certeza, agora, eu estaria aqui te abraçando e agradecendo incondicionalmente pra você por tudo que você fez por mim e eu não sabia. Por mais que eu sentisse e tivesse vivido, eu não sabia. Um nível que só agora dá pra saber.
As noites em claro
O cuidado ininterrupto
A paciência
O afeto gratuito
A atenção
As brincadeiras
Os ensinamentos
As broncas
Os alimentos
A proteção
Por todas as vezes que você segurou minha mão
Por sempre que pediu paciência com meu irmão
Quando disse não
Por todos os sins
Por não ser perfeito
Pela luta
Pela história
Pela família
Pelo respeito
Pelo peito
Pelo jeito
Pelos "porra, negão"
Por toda essa incomensurável inspiração
Estaria chorando, como estou. Estaríamos, portanto, estamos. Só abraços salvam.
Nas ruas lutamos pela educação, pai. Por direitos humanos. Pelo pouco que os muitos tem. Sempre mais do mesmo, mesmo que tantos pareçam a esmo. E estão. Mas lutamos porque não existe a tal da outra opção.
Ainda assim, meu peito dói. Só há poeira na imensidão.
São tempo difíceis. Mas são sempre tempos difíceis para os sonhadores, não é mesmo? Eles militarizam escolas e atacam liberdades, reforçam o projeto de impedir a educação de funcionar. Eu sigo aprendendo e ensinando com a molecada.
Ah... minha tese de doutorado sobre o Recanto das Emas foi indicada pela pós da história ao prêmio de teses da CAPES na minha área. Fiquei bem feliz.
Ana está aqui curiando a carta para o vovô Hélio. Está a pessoa mais maravilhosa que a existência podia conceber. E chata. Geniosa. Cheia de ideias. Incrível.
João já pode ser oficialmente definido como gordo, porque ele já bota a própria comida toda na boca e pede a sua. Ele é apertável e carinhoso, cheio de energia. Ele e o Gustavo vão formar uma dupla e tanto.
Acho que é isso, pai. Certo que haveria muito mais. Mas tal qual a saudade, não cabe na carta. Amo você.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Meu

No meu verbo
No meu verso
No meu verto
No meu ver-te
No meu verde
No meu ter-te
No meu torto
No meu porto
No meu parto
No meu farto
No meu fardo
No meu ardo
No meu ar
Dor

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Trevos

Estamos acabados
Terminados
Findos
Obliterados
Anulados
Impedidos
Negados
Cancelados
Desfeitos
Moídos
Nos peitos
Nos jeitos
Nos aceitos
Nas seitas
No como se ajeita
Ao que não tem jeito
Em tudo que podia ter sido
Mas estamos vivos ainda...

sábado, 13 de abril de 2019

Tempo ou tem pó

Sossego
Só cego
Só cedo
Só lerdo
Se ergo
Envergo
Em verso
Inverso
Inverto
Pro seco
Pro cerco
Esterco
És terno
Eterno
Inferno....

terça-feira, 26 de março de 2019

Lua



Se somem os lábios
Se somam-se os lábios
Astrolábios
Alfarrábios
Aos homens larápios
Ou sábios
Assomas ao lábaro
À lavra
Ao largo
Sois astro

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Eu queria mesmo era uma orientadora educacional ou Porque eu não quero escolas militares...

Salve pessoas. Como vão? Espero que bem, embora eu ache difícil nos tempos atuais.
O que me traz até aqui é que descobri na última sexta-feira (11/01), por conta do anúncio do novo governador do DF Ibaneis Rocha, que minha escola, o CED 308 do Recanto das Emas, assim como outras três escolas da rede pública do DF serão espaços de um projeto da Secretaria de Segurança para disciplinar alunas e alunos através da MILITARIZAÇÃO. Você pode encontrar farto material informativo na imprensa com uma pesquisa rápida.
Os parâmetros que tenho sobre o funcionamento são os que circulam na imprensa: a parte disciplinar será cuidada por uma equipe de 20 a 25 policiais e/ou bombeiros militares fora da ativa, enquanto a parte pedagógica viverá pretensamente alheia a isso. Além disso, musicalização e orientações morais e cívicas serão trabalhadas no contra-turno. As alunas e alunos terão de usar fardas e professoras e professores usarão jalecos.

NÓS NÃO FOMOS CONSULTADOS.

Nós, professores do CED 308 do Recanto das Emas não fomos e não estamos sendo consultados. A comunidade não foi consultada.  Esse processo atropela o nosso Projeto Político Pedagógico e FERE A AUTONOMIA DE NOSSA ESCOLA.
Conversas estão sendo buscadas com sindicato, imprensa e contatos políticos para esclarecer as coisas.
Se você puder ajudar informando às pessoas que essas arbitrariedades violentas estão acontecendo, eu agradeço.
E sabe o que é pior... eu voltei pra escola após o doutorado no começo do ano. Minha escola não tem mais orientadora pedagógica. Faz uma falta incomensurável todo dia. Queriam fechar a Sala de Recurso, que atende cerca de 15 alunos com necessidades especiais na minha escola. A melhor professora de português da minha escola (a melhor que eu conheço) fez o concurso de remoção e não estará esse ano.

EU NÃO PRECISO DE MILITARES PARA DISCIPLINAR MINHAS ALUNAS E ALUNOS. EU PRECISO DE ORIENTADORAS, COORDENADORES, PROFESSORAS.

Se a minha escola receber 20 pedagogas, indubitavelmente haverá melhora da experiência escolar, inclusive no aspecto disciplinar.
Minha escola convive com notas baixas do IDEB há anos, com queda inclusive, e está localizada em uma área de periferia com problemas infindáveis de violência cotidiana. É verdade.
Isso não vai resolver o meu problema e de quem estuda comigo, que estou nessa escola há 9 anos.

GOVERNADOR, NOS FORNEÇA 20 PROFISSIONAIS DA ÁREA DE EDUCAÇÃO, INSTRUMENTOS PARA A MUSICALIZAÇÃO, 200 MIL ANUAIS EM INVESTIMENTOS E TEREMOS RESULTADO MELHOR QUE O DAS ESCOLAS MILITARIZADAS.

Honestamente, Jorge Santos, professor.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Édipo e a Esfinge


Em volta, tudo era o caos. Aquele era um encontro marcado, pois oráculos já o haviam anunciado. Ainda assim, ele não deixou de se fascinar com aquele ser parte mulher, parte felina.
- Aqui está você, viajante. Em breve, serás mais um que terei devorado.
- Guarda teu mistério. Não temo o que possa acontecer.
- Todos dizem o mesmo. E ainda assim, ao fim, eu os devoro.
- Eles devem se perder no seu olhar, nos desenhos do teu corpo, nas malícias das tuas palavras. Mas não eu. Eu nada tenho a perder, por isso nada lhe devo.
- Pobre mortal. Eu destruí Tebas das sete portas, eu devorei os touros de Creta, humilhei os lamassus de Uruk, coloquei de joelhos as dinastias do Nilo. O que poderia você, roto e poido, faminto e cansado, fraco e humano fazer contra mim?
- Decifrar-te. Não é isso que exiges? "Decifra-me ou te devoro"? 
- Sim! - O fogo queimou nos lábios dela. Longamente. Como se fosse a própria eternidade e ele não pode deixar de admirar aquela demonstração de poder divino. Édipo sabia que haviam muito deuses para além dos aliados de Zeus. Alguns buscavam governar os mortais, enquanto outros apenas buscavam consumi-los sem falsos moralismos. Eram tão antigos quanto o primeiro ser consciente.  - Decifra-me ou te devoro. É isso mesmo. Se conhece o protocolo, onde está o presente que impede que eu te devore antes que decifre, quando eu bem quiser? 
- Aqui está...
- Onde estão as coxas fartas do gado ou a vida de uma criança cujas possibilidades guardarei no meu íntimo.
- Trago algo maior... Sabedoria!
A esfinge tomou o livro. Era um tomo mágico. Tratava de um herói anunciado que reordenaria o estado das coisas, para afastar as trevas do caos. Um messias indeciso que romperia as amarras primitivas que iam se acumulando ao longo dos tempos para fazer ressoar uma nova harmonia, que só existiria para ser soterrada, como todas as outras antes dela.
- Isso não é sabedoria. É ilusão. Os homens são sempre tolos, porque são limitados. Veja as marcas no meu corpo, agora pode vê-las melhor. Não são todos que as veem. Elas mostram outras eras, são signos da dor inerente à entropia de existir. Você crê que vem aqui instaurar algo novo. Pobre tolo. Vens apenas mergulhar no abismo do vazio. Se não estivesse tão preso a essas bobagens ilusórias, ao menos poderia gozar da vertigem da queda.
- Não me perco em sua lábia, divindade. Eu aguardo teu enigma. Fiz minha oferenda.
A Esfinge cuspiu algum fogo que consumiu o tomo, erguendo fumaça e cinzas ao céu. Curiosamente, uma brancura mortífera a cercou. Longe de erguer trevas, aquela divindade felina e feminina brilhou como se fosse o próprio sol. Ao invés de terror, foi a magnificência que se impôs e Édipo maravilhou-se como nunca tinha acontecido. Sempre se diz que os mortais que se atrevem são consumidos pelo poder transcendente de tudo que era divino. Ali o destino do mortal Édipo foi selado e não no sangue que ele derramou no caminho. Mesmo que já fosse acompanhado pelas Eríneas, foi nesse ponto que seu rumo se definiu.
- Qual o ser que no alvorecer caminha sobre quatro patas, mas que ao estar o sol no zênite o faz apenas com duas, para já próximo do crepúsculo precisar de três pernas para avançar? Responda com a sabedoria que acredita ter, pois sua resposta será recompensada com toda minha voracidade.
- Eu conheço a resposta, mas não irá aceitá-la.
- Responda ou morra.
- Esse ser é mortal e humano. De manhã, seja mulher ou homem, engatinha com mãos e joelhos próximo de sua primeira mãe, a terra. Quando cresce, liberta-se um pouco dela para seguir apenas com os pés. Por fim, quando principia o findar de seus dias e sua mãe o chama de volta, este apoia-se em um cajado para pode prosseguir.
A Esfinge nada disse. Ela apenas encarou Édipo no fundo dos olhos como não fizera verdadeiramente até ali. Édipo sentiu toda a dor que habitava aquela existência de tantas eras. Mas também sentiu o calor máximo de tantas vidas sorvidas que alimentavam aquela alma. Ele sentiu como se sua alma também estivesse sendo tomada e mergulhada naquele mar morno e brando que apaziguaria suas inconstâncias para apenas servir a algo maior. Não cabia mais em si. Sentiu os lábios dela em seu pescoço, que antecederam as presas que rasgaram sua carne. O prazer foi sem fim. As unhas marcaram suas costas e as mãos dele desceram pelos seios e pelo que havia de mulher naquela forma. Logo, ela estava sobre ele e o dominou totalmente. Por mais que o consumisse, ela deslizava e derrama-se sobre ele de modo a lançar ondas de êxtase pelo espaço. Nada dele restaria, mas Édipo já não se importava.
Foi então que ele abriu os olhos. Viu o céu. Sentia o cheiro doce, as dores pelo corpo. Mais adiante, a cidade de Tebas.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Formas



Se você não está feliz com sua forma
Lembra que é culpa da norma
Que quer todos iguais
Magros, produtivos e banais
Sendo que podes muito mais
Por teres a beleza desse sorriso
Por seres tudo que preciso
Por teres a feição do paraíso
E a alma endiabrada
Um tanto doce, um tanto safada
Muito além da carne marcada
Tens a vontade alada
Isso sim é coisa sagrada
Uma deusa inflama
Com tanta chama
Que delírio derrama
Não cabe nas coisas humanas
Com suas coxas insanas
Seus cachos
Seu canto
És tanto
Em cada detalhe
Que nem na rima cabe
Porque és linda
Mais que demais
E o mundo que tem que pensar em mudar pra te merecer...

sábado, 18 de agosto de 2018

Atravessados



Ela veio
Bem no meio
Bem no seio
Com seu passeio
Sem seu passado
Mesmo que a cada passo dado
Tudo fosse deixado de lado
Era o corpo arranhado
O que importava
Que delirava
Pois da lira derramava
Jorrava lava
Quente
Rente
Que se sente
Entre a gente
E arrepia
Invadia
Vadia
Desvaria
Devorada
Demorada
De mãos safadas
As bocas dadas
E as almas
E as palmas
Sem ter calma
Sem ter trauma
Atravessadas