domingo, 17 de julho de 2016

Saudades de um sopro


Tava com saudade de chamegar você
Esfregar minha vontade nos seus contornos
Mordiscar seus suspiros
Enroscar nos seus dengos
Me enfiar nos seus assanhos
Rebolar com suas manhas
Penetrar seus quereres
Prolongar suas vontades
Explorar seus cheiros
Me misturar no seu molhado
Dar um tapa na sua chama
Tirar seus pés do chão por maldade
Morder seu queixo num ápice
Beijar você num gozo
Beijar
Beijar
Olhar
Soprar
Um sopro...

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Sabe ou Par

Quem sabe
O que o outro sabe
Mal sabe
Que não se sabe
Sequer o que se sabe
Porque em nós mesmos
O nós não cabe
Estamos a esmo
Às vezes aos pares
Nunca somos singulares
Mesmo se parece que sabe
Tudo isso que a gente sabe
Nunca se sabe
Se no outro cabe
Se no outro acaba
Sinuosa capa
Só sei que nada sei
E até nisso eu errei
Daí desassosseguei
Mas ainda levo da vida muito tapa
A gente derrapa
Tropeça
Desconversa
E quando não vê logo pensa
Que a vida é imensa
Mesmo se o crime não compensa
Não se está aqui pela recompensa
Mas pelo caminhar
Que é melhor com um par
É bom ter com quem conversar
Alguém que em nós não cabe
Sabe...

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Caçada


Ele saiu a procurar
Não sabia o que poderia encontrar
Muitos diziam que era uma floresta encantada
Um reino das fadas
Mas alguns preferiam falar
Que ali não havia nada
Era terra assombrada
Perigosa de passar

Ao chegar lá
Se é que esse lá há
Ele viu um rápido movimento
Por um breve momento
Um segundo quiçá
E farejou no vento
Um aroma que desfez o desalento
Que em seu peito sempre está

Correu atrás daquilo
Mesmo sabendo que poderia parti-lo
Não se importava
Era justamente o que buscava
E diria fi-lo porque qui-lo
Enfrentaria o sibilo
Que seu peito desafiava

Ao se deparar com ímpar beleza
Teve convicta certeza
Era tudo que ele queria
Era uma luminosa magia
Que o levava além da crueza
Essa dos habitantes o dia-a-dia
Sempre forjado na monotonia
E, assim, o caçador fez-se presa...

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Carta para Hélio Lopes

Salve pai... hoje você faria 67 anos... já são quase 6 anos, nego véio, cada dia é mais um dia de saudade. E ainda assim de um tempo pra cá com novos detalhes, pois já tem 1 ano que aprendi a ser pai e entender ainda mais o pai que você foi. É uma grande viagem essa tal paternidade, mas estou crescendo muito nesse processo. Eu aprendo tanto todo dia.
Você ia amar a Ana, pai. Ela é o máximo. Você ia achar ela o máximo, assim como eu acho, sendo suspeito como eu sou. Acho que você ia estar aqui o tempo todo. Ela tá andando. Dá uns 10 passos e cai de bunda no chão, mas acha o maior barato. Nós trocamos duzentas ideias sem que ela pronuncie uma única palavra. Ela me convence a usar a língua de bebê dela. Ela é o clone da Dé e de mim tem só o amor, mas é tanto amor que mal cabe na pessoinha dela. Com a licença do doutorado, estou imerso na vida de pai tempo integral. Nasci pra isso, porque aprendi com o melhor. Tô vivendo cada aprendizagem, cada sorriso, cada manha dela e me encantando ininterruptamente.
Ela é super tranquila e gosta de todo mundo. O Guto vem me ajudar quando eu preciso e almoça sempre aqui. Ele e a Ju são tios super babões, assim como os irmãos da Dé. E os
avós então? Acho que você consegue imaginar...
O doutorado segue. Qualifiquei e agora tô tentando prosseguir com as entrevistas.
Ah, encontrei com a tia Valdete hoje. Ela tá cuidando de uma idosa aqui na 307 sul. Vou levar a Ana pra tomar sol com elas na sexta.
No geral, segue a crise. E quase ninguém tá aprendendo nada com isso na minha opinião.
O Marley operou da coluna... teve uma hérnia. Tá em recuperação agora, mas o processo é lento.
O Flamengo se livrou do Wallace, tenho certeza que isso te agradaria...
Na sexta tem aniversário da Helena, filha da Gabi... vamos lá prestigiar e ver o povo.
Em agosto, vou pra África do Sul de novo visitar o Paulinho e a Mariana.
Vou sentindo essa saudade perpétua e cotidiana enquanto padeço no paraíso, negão. Wish you were here...

segunda-feira, 9 de maio de 2016

1 ano de Ana ou sobre ser pai 3...


Há quem diga que o tempo voa...
Eu te diria hoje, pessoa amiga
Que ele engatinha e já ensaia libertar-se bípede por aí
Ainda carece de apoio
E de apoio carecerá por muito tempo ainda...
Não carecemos todos nós?

Mas minha pequenina forma do tempo está cheia de graça
Há mais magia por onde ela passa
Em tudo que ela faça
Precisas ver como gira o mundo quando um bebê te abraça
Pousa a cabeça no teu ombro
É como se virasse castelo a ruína
Nuvem, o escombro
Tudo que faz minha menina
Me fascina
Me desatina
Me causa assombro

Se ela concatena dois sons
Se ela vacila no ar tentando se equilibrar
Ou simplesmente consegue se virar
E os pés pousar
No piso marrom
Para ela é tudo bom
E eu a admirar
Essa vida ainda sem tom
Para ela é magnífica qualquer melodia
Seja uma cantiga do dia-a-dia
Ou a repetida galinha pintadinha
Sei que se em mim ela se aninha
Até essa tormenta que nos envolve
E o pior que se avizinha
Se dissolve
Se dissipa
E eu só penso em ensiná-la a soltar pipa
A nadar, ler e sonhar
Em fazer dela uma pessoa ímpar
Mas é ela que vai me fazendo seu par
Seu pai
Algo em mim mudando vai
Aprendendo
Florescendo
Nas minhas fissuras
Criando remendos
Pois pra tantas aprendizagens duras de outrora
Essa aurora
Trás novas juras
Novas curas
Tantas canduras
Que o mundo afora se admira com meu encantamento...

terça-feira, 3 de maio de 2016

Para lua

Olhando a lua
Toda aquela superfície nua
Fez uma reza
Nos volteios do campo onde atua
Era o que mais presa
Uma prece
Pro que mais lhe apetesse
Um pedido
No peito perdido
Não era santo
Partira o dragão
Mas vagava naquele chão
Arrastava o manto
A lua com seu encanto
Que era tanto
O solo pro seu pranto
E ele esquecido da razão
Sabia que era ilusão
Nunca a teria pra si
Mesmo que morresse ali
Ela era da multidão
Ela cintilava na imensidão
Ele queria abarcá-la em vão
Como um tolo
Que planeja o dolo
Sem ter munição
E seguia a procissão
Mas ele ia na contra-mão
Atirara longe o brasão
Descera do cavalo
Pois a lua não iria amá-lo
Nem mesmo mudaria sua translação
Só iria aceitá-lo
De fato
Por um tempo inexato
Como inexata era aquela paixão...

domingo, 6 de março de 2016

Silêncio e surdez

Dessa vez
Entre os surdos
Pipoca o som com altivez
O ar vibra
Percorre cada fibra
Mas para os surdos
Mudos
Não existe o três
Todo par é zero
Todo lero é avaro
Não raro
Um ódio sincero
Que não quero
Escorre pela tês
Se não crês
Observe a rês
Que nega os absurdos
Fixos no muro
Perdidos no jogo duro
Surdos
Para toda a sinfonia
Intoxicados de monotonia
Competindo e gesticulando
Para enfatizar as palavras que não ouvem
E saudoso do silêncio
Tento trazer à memória alguma cantoria...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Mudar ou a última


É preciso mudar
Mudo
É impreciso mudar
Mundo
Precioso mudar
Imundo
Imperioso mudar
Tudo
Peso de mudar
Afundo
Até o fundo
Se penso
Propenso
Prenso
Infindo fastio se mudo
Surdo
Cego
E louco
Sempre fiquei muito
E ao ficar pouco
Saudoso de quando estava rouco
De tanto cantar
De tantos cantos a abraçar
O pequeno
A fada
O outro
A musa
E tantos mais
Amar o êxtase fraterno coletivo
Mas o mar espalhou-os do meu crivo
Daí que derivo
Essa metamorfose ambulante
Medo de perder o inebriante
Que já veio se perdendo em cada passo
Pontilhando o traço
Esgarço
Mas rasgou-se a costura
Fiz juras
E nada dura
Nessa vida dura
Mais do que permite a social usura
Então guardarei a última cura
Para a explosão do impacto
O derradeiro ato
Enquanto remendo o pato
E coço as mãos buscando aquele arrepiar no tato
É fato
Foi o melhor de tudo
Um suspiro
Dois
Fecho os olhos
Mudo...

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Sobre ser pai 2



Já são 6 meses de Ana. Quanta Ana. Não há mais sem Ana. Todo dia, toda semana. Enquanto ela cresce veloz, alarga-se a foz do rio de minha vida. Há cores novas antes indefinidas. Há partituras novas, que antes eu via, mas não podiam ser lidas.
Me encanta. Toda essa vida que há em Ana. Que há em nós. A vida não é plana. Não é plano. É mundana. É infinita nas possibilidades. Nas ciladas da cidade. No desembestar da mocidade. Da mocinha que dorme, não quer comer, adora árvores e ri com as alturas.
Árduos são os percalços. Nada é natural. Tudo é experiência. De se equilibrar uma cabeça a engolir um alimento. Mas saborosas e entusiasmantes são as vitórias. Os sorrisos. Nem todo mundo arranca os sisos. Nem todos estão indecisos. Alguns apenas sorriem antes que o mundo leve isso.
Tais glórias não lembramos na fábula, apenas no gesto. Daí que me empresto, me envolvo, me entrego, me apego, pormenores resolvo. É como ter oito braços de polvo. Havendo tempo para o encanto, para saborear, é sabor ímpar. Brincar no banho até a pele enrugar.
É tanto que parece nosso o pranto. Antes fosse. Pudesse fazer tudo ser doce, racionalmente não faria, pois se a vida desvaria, precisa de tropeço. E eles estão por aí desde o começo. É o preço. Da vida. Mas Ana a deixa mais colorida. Cor de cenoura, beterraba, feijão, arroz, espinafre e frango, tudo batido no processador. Papa.
Papai.
Sou...

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Soneto da festividade

De tudo, ao meu festejo serei atento
Antes, e levarei gelo, cerveja mais um tanto
Que a esmo com doideras me encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada ímpar momento
E em louvor hei de multiplicar meu canto
E rir meu riso esquecido de ser santo
Irei desembestar até clarear o firmamento.
E assim, que tal êxtase me cure
Quem sabe a lissergia, libertação de quem vive
Quem sabe a embriaguez, fim de quem na pista inflama
Eu possa lhes dizer do festejo (que tive):
Que não seja sem final, posto que a vida clama
Mas que seja infinito enquanto dure.