terça-feira, 14 de março de 2017

Velhas senhoras


As horas
As velhas senhoras
Por esse mundo afora
Esse mundo que devora
Narram agora
Com seus pés cansados
Os dias descalços
Os traços
Dos laços
Os companheiros falsos
Pelo espaço
Tempo
Trampo
Tampam
Enquanto acampam
Invadem
Lotes
Barracos
Recantos
Habitam
Fitam
Se ficam
É porque não podem desistir
Sempre tiveram que ir
Sempre tem
Um longe além
Uma margem
E muito mar
De gente
Que sente
Vivente
Fazendo repente
Enquanto as serpentes dormentes
Destilam veneno
Em seu mundo pequeno
Cercado desse sertão vasto
Ser tão
Vastas...

sábado, 18 de fevereiro de 2017

A mesma praça



Faça
Traça
Esgarça
Sem graça
Farsa
Falsa
Passa
Caça
Valsa
Pausa
Dança
Trança
Transa
Taça
Crassa
Devassa
Descalça
Abraça
Embaraça
Traça
Esgarça
Tanta graça
Amassa
Disfarça
Outra praça
Na verdade, a mesma praça
Faça o que faça

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Cassandra ou um cigarro



(Ela deliciava-se ouvindo The Doors. Ouvir Jim Morrison sempre lhe excitava os sentidos.) - Come on... come on.. come on, touch me baby.. can´t you see that i´m not afraid?.. What was that promess that you made.. (Soltou os cabelos desejosa de libertar-se dos arredores sufocantes.
Chamava-se Cassandra. E ali onde se refugiava, Cassandra era uma rainha. Fora dali era apenas Cassandra. Tinha um emprego mundano. Colegas apagados. Atribuições burocráticas. Espectativas insossas. Devaneios vãos.
Eu disse fútil? Perdo-me, quis dizer Cassandra, a grandiosa.. nã... não.. sinto muito.. eu.. euu.. a.. aahh...)

- Porco maldito e pretencioso. Deixe-me apenas prender o cabelo e abaixar esse barulho infernal. Maldito lugar quente. "Cassandra, a fútil".. ora vá pro inferno seu autorzinho de merda. E você aí, a concordar com isso, não é? Não pense que me engana.. sei como gente como você funciona.. fica daí do seu mundinho, concordando com o que é dado e simplificando toda a minha profundidade. Tudo bem, eu me chamo Cassandra.. mas já fui a preferida de Apolo.. a primeira entre suas sacerdotisas.. a maior profetisa.. filha de Príamo.. e veja só onde fui parar.. num bloguezinho de segunda categoria.. ao som de rock dos anos 70.. por favor.. à mercê de um pretenso fanfarrão de adjetivos. Eu era cantada pelos aedos.. depois pelos bardos.. e agora tenho de deixar a Terra das Quimeras para habitar esse conjunto de pouca significância. Esnobe eu? Por favor.. eu sou divina, ser ínfimo. Deveria ser eu a ler você fazendo tolices insignificantes no entremear de seus posicionamentos levianos. Hunf.. ao menos aqui posso fumar um cigarro.. ainda que tenha de tirar essa estupidez de filtro.. filtro.. filtram tudo e apreendem nada. Hunf.

- People are strange.. when you're a stranger, faces look ugly when you're alone.. women seem wicked, when you're unwanted, streets are uneven, when you're down.. When you're strange, faces come out of the rain.. when you're strange, no one remembers your name..

Eu já tive outros nomes. Assumi muitas roupagens. A gente tem de se virar pra sobreviver.. pelo menos sei que nunca vou morrer de câncer de pulmão. Um dia só não vão mais lembrar de mim.. niinguém vai mais me acionar e PUFT.. Cassandra, "a fútil", já não existe mais. Será bom poder ir perambular por outras cercanias.. claro que vou sentir saudades daqui. Não de vocês. Nem do dono de todo esse sangue malditamente gosmento e real. Vou sentir mais falta desse cigarro, posso te garantir. Desse prazer.. tão fulgaz, que é perfeito. É a ardência inigualável de matar algumas células. Elas explodem de prazer. Azar das que vão, sorte das que ficam. Nada como o prazer de capturar os desígnios da própria mortalidade.. isso é válido mesmo pra mim, com minha mortalidade muito mais complicada que a sua. Ahhhh, inferno... inferno.. inferno! Bom.. acho que está tudo resolvido por aqui e posso ir. Você também já devia ter voltado pra sua vidinha fútil... isso mesmo.. FÚTIL!!! F.. Ú.. T.. I.. L!!! Ei.. o que diabos.. larga isso.. nã.. e.. eu não quis dizer aquilo.. voc.. c.. a.. aahh... ...

...

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Perspectivas



Murcham as flores Desbotam as aquarelas Apagam-se as fotografias Continuam a haver dores Algumas sequelas Inconstantes frentes frias Sempre mais do mesmo Não era isso que você queria ouvir Mas no porvir Só pode vir A cada quero ir A louca conjunção Da sua condição Onde o caos te pega pela mão E a ordem sopra movimentos Temos de ir saboreando o vento O fazer no reinvento Curtindo a paisagem Trabalhando na vertigem da viagem Pois chegar é bobagem Teleologia antiquada dos antigos Perdidos no próprio umbigo Mas tenho cá comigo Que o único abrigo é o mundo A única possibilidade é a vida Posso ser raso, largo, profundo Pode ser preta e branca ou colorida Devaneios de um mero vagabundo
Mas no fundo
Fecundo Curtir ainda é minha saída preferida...

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Sobre ser pai 5

Domingo chegamos de viagem. Já era noite, Ana não dormiu no voo e estava bem cansada. Mas eis que chegando em casa, ela reconheceu o lar. Foi aos brinquedos da sala e esparramou todos, pegando um por um. Depois foram os livros. Pegava, trazia até mim e pedia que eu mostrasse.
- Esse! - Ela gritava com entusiasmo.
Depois foi a vez de tudo que estava no quarto.
Eu adoro viajar, mas assim como minha filha, adoro voltar pra casa...

Há alguns anos eu já não tinha entusiasmo pelo mar. Praia pra mim era cerveja, sombra, petiscos e um livro (ou trance... rs). Esse ano eu entrei no mar praticamente todo dia. Algumas vezes, cinco vezes no mesmo dia. Sentei na beirinha. Medi o ritmo das ondas com os passos da Ana. Tomei onda na cara pra ela passar por cima. Pedi desculpas a Iemanjá para apresentar minha criança.

Já são 1 ano e 8 meses de encantamento, 1 ano de parceria entre nós dois desde o fim da licença da Dé. Em fevereiro, ela começa na creche e eu tenho que terminar minha tese, mas o maior projeto da minha vida segue a pleno vapor...

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Depois do fim



Quinze horas atrás ela era minha
Na verdade nada nunca foi meu 
Ela era tudo que eu tinha
Era
Ela
Eu
Tolo de achar que tal escarcéu 
Tolo de achar que um céu é teu
Inferno
Ao menos há calor
Mas pode ser gélido
Depende do seu pavor
Mesmo se nada é eterno
Nem ser lido
O corpo despido
Coisas do vivido
Entre tanto que podia ter sido
Foi o que houve
E se não há
Tanto por cá
Pois nada nunca, quiçá
Quem são
A espiar pelo vão
Os sãos
Ouçam ou são
Delírios
Nesse mar de lírios
Pra cada martírio
Um mar te rio
Dez fez
E desfez
Com brilho dessa tês
Essa ultima vez
A tal desilusão...

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

No fim


No fim
Ela chegou pra mim
E disse assim
Tenho que ir
Te quero tão bem
Que preciso partir
Tomar esse trem
Encontrar outro além
De você me despir
E eu quis segura-la
Explicar como era rara
Mas faltou-me a fala
Foi daquela dor que cala
Que até o tempo para
Que faz do jardim
Um Saara
E quando eu vim
Já era tarde
Mesmo se o peito ainda arde
Mesmo se depois fui puro alarde
Na hora
Só sofri
Me vi ali
A dor de quem chora
E devora cada lágrima
Esquece a rima
No peito essa espora
Na vida essa esgrima
As grades não lima
Apenas um querer que parte
Porque a vida tem tanta arte
Mas nem toda arte é pra vida

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Antes do fim

Faz tempo que não escrevo
Não sei se assim à deriva, devo
Sou dos que procuram quatro folhas no trevo
E graça na musa
Não há o que viva
Se ela não me abusa
Se meus caminhos não cruza
Se não me prende nas tranças
Me transa
Sem esse algo em mim
Que por ela balança
Tudo cansa
Estou assim
Preso na dança
Dos lábios carmim
Desse sabor de sem fim
Dos desenhos da tua forma
Mesmo se poeta não tem norma
Tem teu nome
Na minha fome
Na minha carne
Na minha sintaxe
No meu verso...

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Queria você aqui ou Convite prum aniversário

São tantos anos
Tantos festejos insanos
Tantos mirabolantes planos
Que eu queria que você estivesse aqui
É tanta gente
Tanta estrela cadente
Tanta loucura inconsequente
Que eu queria que você estivesse aqui
Tantos amigos
Tanto que levo comigo
Tanto ririr na cara do perigo
Que eu queria que você estivesse aqui
Tanta birita
Tanto chá de fita
Tanta prosa entre a lombra bonita
Que eu queria que você estivesse aqui
Tantos cogumelos
Tantos lissérgicos castelos
Tantos submarinos amarelos
Que eu queria que você estivesse aqui
Tantas rodas abraçados
Tantos Toca Raul bradados
Tantos camaradas por todos os lados
Que eu queria que você estivesse aqui
É tanta história
Tantos seres mitológicos em plena glória
Que arrisco dizer de memória
Estás sempre, vossa excelência, por aqui...

domingo, 17 de julho de 2016

Saudades de um sopro


Tava com saudade de chamegar você
Esfregar minha vontade nos seus contornos
Mordiscar seus suspiros
Enroscar nos seus dengos
Me enfiar nos seus assanhos
Rebolar com suas manhas
Penetrar seus quereres
Prolongar suas vontades
Explorar seus cheiros
Me misturar no seu molhado
Dar um tapa na sua chama
Tirar seus pés do chão por maldade
Morder seu queixo num ápice
Beijar você num gozo
Beijar
Beijar
Olhar
Soprar
Um sopro...