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quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Sabe...

 Cedo

Bem cedo mesmo 

Antes do dia apresentar seu enredo

Eu meio a esmo

Tateei você

Semi despida

Reflexiva 

Com a vida em carne viva

E minha vontade mais atrevida arranhou o teu ser

- Sabe...

E o que veio depois não cabe

Nas rimas que um poeta é capaz de fazer

Era tanto beijo

Tanto cheiro

Tanto aperto

Tanta pele grudada

Tanta loucura transbordada

Que o certo virou incerto

Que o bater dos peitos ficou tão perto

Tão lá dentro

Tão no íntimo

Que refez o centro

Dobrou o tempo

No correr dos dedos

Carinho e cafunés desfazendo nós e medos

E nós... ah, nós... só há nós... mais e mais nós... 

- Já é tarde...

Ainda arde

Em cada parte

Nossa arte

Enroscamos as pernas

Certas rimas são eternas 

Mas outras são fulgazes

Pro fogo que trago

És mar

A ir e voltar

Me banhar

Correntezas profundas a me tragar

Sem fim

E seguimos assim

Eu só querendo saber de você

Você deusa eterna de mim

sábado, 26 de agosto de 2023

Velocidade ou Sem parar

 


Ela entrou no carro

Acelera!

Espera é que...

ACELERA!!!

Sem saber o porquê

Um contato que esbarro

Piso no acelerador 

Grita o motor

Canta o pneu

A velocidade cresceu

Ela grita mais uma vez

ACELERA!!!

O mundo vira um borrão 

Ela relaxa no banco de couro

O olhar já agradece

Aquilo vale mais que ouro

Ele mantém o câmbio na mão

Tocando a coxa

Escapei de um trouxa

Ela falou

Com um carinho no braço

Estranhos com um laço

E sem embaraço

Os dedos dela um caminho traçam

Haviam muitos carros na pista

Os olhares por um instante encaixam

Ela acha o espaço

Quando ele desacelera na curva

Ela pula

Você é louca

Você ainda não viu nada... acelera!

Sem ligar mais pra acidente 

Ele seguiu em frente

E ela com todo jeito

Deu aquele jeito

Fez do mustang veloz o leito

Grudados cada vez mais rente

Ela mordeu o pescoço

Assumiu o câmbio do homem

Com fome

Engatou a primeira

Faceira 

O resto é besteira

Meteu então a segunda

Rebolada safada da bunda

Esquecido de tudo ele soltou um tapa naquela maravilha profunda

Terceira 

Alguém buzinou lá fora

Ela adora

Muito mais ela devora

Já quicava desvairada agora

A quarta

Farta

Ele inteiro em cada pedaço ela abarca

Ele mantinha os braços firmes

Tudo duro

Tudo quente

Cada vez mais rápido

Eles iam queimando pelo asfalto 

Quinta

Sinta

Sem santa 

Só diaba

Me acaba

Quica essa raba

Danada

Ela delirava

Mais e mais ela desembestava

Infinita

A sexta

Ah... a sexta

Que a gente não é besta

É aí que a gente se beija 

Que tudo explode

O carro capota

Ah não fode...

Mortos 

Tortos

Eternizados

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Viagem



Sonhei que chegava em Sampa

Te encontrava na Paulista

Cervejinha enquanto o povo trampa 

Sorria mais até que o desejo insista 

Te envolvia na Consolação 

Te descia pela Augusta

Corre mão pesada de disparar o coração 

Respiração pesada como te gusta 

Pauliceia desvairada

Safada

Ali onde cruza a tua Ipiranga 

Na minha avenida São João

Arranhar céus 

Caldo do mel na minha cana 

O grito emana

Tua garra corintiana 

Me domina

E eu Flamengo 

No teu quengo

A gente se dana

Tu emana 

Eu teu mano

Tua manha

Desatina

Uma semana 

Pra sempre 

Por aí

domingo, 19 de junho de 2022

Três vezes olhei para o Nada



 Três vezes olhei para o Nada

Ali da minha sacada

Exausto de tanta jornada

E bem sabia que só o mal me esperava

A angústia lhe devorava

Tal qual um rio caudaloso de lava

Nem o pó restaria da empreitada

Mas ele se destacara daquela manada

Se desatara da forma como dava

Mesmo deixando toda a gente tão brava

Quando o cravo na ferradura crava

Não era no Nada em que ele pensava

Mas agora já estava ali defronte

Eclipsava todo e qualquer horizonte

E por mais histórias que um poeta conte

Ele sabe quando a poesia morre

Falta

Nada o socorre

Nenhuma rima salta

Mesmo se artista é gente incauta

Nem tudo se resolve com porre

Com porra

Com pira

Compasso

Se paro

Se pulo

Ouso

Pululo

Estouro

Mas não vem

Não veem

Ninguém

Para levá-lo além

De fazer rimar o querer-bem

Que todos sabem não tem hífen

Mas para o Nada mesmo assim está tudo bem

Pois a obliteração total e absoluta da inspiração é só a anunciação

De que

Estamos

Assim

Aquém

Sem fim

Só nada...

 

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Eterna


Ela tem detalhes
Caprichos
A começar pelos olhares
Nichos
De hipnotizar os pares
Ela é digna de altares
Ninhos
Por espalhar tanto carinho
Em um mundo de tanto espinho
O sorriso cor de vinho
A alma cor de vou
Pois ela tem a graça do voo
Uma vida não bastou
No seu ar de eterna
Enquanto ela bate perna
Ou o mundo inverna
Ela inventa
Reinventa
Ela é o mar
Ela arrebenta
E acolhe
Que os pés molhe
Ela é as ondas
Correnteza
Profundezas
Mas espumas também
Ela, como ninguém
Mais que um bem
É além
E tem uma pose que só ela tem
E até o tempo para pra ela

 

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

O fauno afogado

 



Ele havia perdido sua floresta. Sina funesta para o peito que desembesta. A realidade que resta, assim, é esta. Um fauno besta sem festa, sem fresta, sem flor esta. Só cheio de bile indigesta.

Horizonte. O mar ali defronte. A ir e voltar. Um sem fim que não se conte, infinitos aos montes. Nada de rir. Nada de cantar. O astro rei já partia, mas ali na água fria que escurecia ainda se refletia. Tinha certa magia naquele ar de despedida quando a vida tão colorida vira cinza. Um fauno em ruínas. E era só. Digno de dó. Do cinza ao pó das feridas puídas. 

Ele sentia os cascos na areia. Uma lágrima vadia pelo rosto passeia. Nada mais o incendeia. Não resta nenhuma candeia. É o vento de gelo que sua tristeza lambia, assim como enrolava os longos cabelos em seus chifres recurvos sem qualquer sintonia. Era apenas mais uma noite de qualquer dia, onde bem podia se afogar e tudo naquela enseada acabaria, como se algo pudesse realmente acabar.

Mas eis que do mar, a assomar, insular, fazendo a água ondular, o tempo parar e até o sol se dobrar para se admirar: ela. Com sua luz vermelha, laranja e amarela. Quente, incandescente e bela. Aquarela. Compondo todas as cores possíveis tal tela. A vela, o farol, a erupção, a personificação das estrelas infinitas maiores que sol, ela, que venceu a escuridão. Ali ao alcance da mão. Anunciação. Por certo, nunca houve criatura mais singela em canto algum da Criação. 

A dama erguida das águas de espelho, espanou o velho, gotejou o instante e soprou o novo. Ela se misturou à  réstia de luz que o sol em despedida derramava, enlaçou as possibilidades do existir no fios ainda úmidos dos cabelos. Nada lhe fazia jus, pois só ela o olhar conduz, para o âmago das profundezas de tudo.

E ele ali sem norte, só ardendo nos cortes, não se fez de forte, tampouco erigiu algum porte. Tão perto nesse porto temendo o parto compôs aquela trama do afã de um peito que conclama "salva-me de mim".

- Não sou assim, pobre fauno. A ninguém eu salvo. Muito menos os invoco. Sigo sendo sereia mesmo se não os toco. Não são vocês meu foco, meu foco é o mar.

- O mar é seu, musa minha. Mas tenho pés na areia, ar nos cabelos e esse frio na espinha. O fim se avizinha. E esse algo em ti me desalinha. Me aninha. Me arranha. Me invoca. Se você me toca, até se sou essa derrota, restará esse meu canto eterno da façanha de estar ao teu lado. Meio funk, meio fado. Uma ladainha que da tua grandeza não se avizinha, mas que provoca, que conclama, que anima e que apanha. Faz valer nesse colorido, o nascer de toda poesia. Mesmo aqui diante do meu ocaso raso, teu oceano é um abismo infindável.

- Não rogue. Talvez lhe cause choque, mas eu nunca maltrato outrém com minha lábia. Depois de tantas eras estou ainda viva, se não sábia. Se foram as lâmias, as súcubos, as erínias, as vampiras e outras formas femininas entre Ishtar e Maria. Mas eu sigo, como consigo, entre tanto perigo, ainda ligo pra encantar-me com o céu, olhando-o do meu mar. Mas tenho esse mar todo meu que não me cabe doar, alienar ou entregar. E digo que o vosso escarcéu nada me diz. Palavras ao léu. Não sou deusa, nem monstro marinho. Não estou no ocaso, nem no copo de vinho. Não vim pra ser teu caminho ou seu ninho. Até tu, fauno, nasceste sozinho. Goza a sorte que quiseres entre os seres por mais que as palavras temperes.

- Então para que esse encontro? Como se dá tal confronto entre ser tão e mar. Como não amarrar duas vontades a se desejar. O mundo todo é feito de monstros. Todos somos deuses perdidos de nossos encantos. Apoteóses decadentes desde o primeiro instante e cada vez mais. Te mostro e aposto que somos, podemos, fugazes e famintos. Estrelas queimando pelo espaço vazio. 

O toque dela foi intenso e o derreteu de início. O beijo dela foi intoxicante e um vício. O aconchegar-se foi como sair voando pelo precipício. O balanço. A dança. Pêlos dele, escamas dela. Carne de ambos. Carinho. Ferver do sangue. O colar dos umbigos. Universos se fundindo. 

Ela cantou no seu ouvido.

Ele rimou pelo pescoço dela.

Ela o domou pelos chifres.

Ele a tomou pelo mar.

Voaram.

E por fim, ali, naquele mar, ele se afogou.


sábado, 15 de janeiro de 2022

Só(nho) ou Par(tido)


Sonhei que você ia 

Se juntar ao povo da correria

Mas eu corri e voei

E ali na beirada do dia

Te alcancei

Voa comigo eu te falei

Tudo que preciso é do seu umbigo

Do seu afago, do seu fado, da gente de papo furado

Que quando você está ao lado

Não tem perigo

Teu abraço é o abrigo que tanto persigo

Daí você sorriu esse sorriso criador de universos

Essa luz que inspira meus versos

E com um beijo disse vem comigo

Ao infinito e além

E foi tanto querer bem

Que não havia rima capaz de comensurar esse trem

De estar com alguém que é uma parte da sua alma

Que o coração faz o mesmo tum tum tão junto

Que te cativa em cada assunto

Que lê seu arrepio na palma

Que te ama com a devida calma

Deixando a paixão invadir

E ali no voo

Cercados de nuvens, passarinhos e ar

Fizemos o ninho e o par

Conjugados até não mais aguentar

Musa poetizando

Poeta te lendo

Com o olhar te venerando

A boca te acendendo

Os dedos te tecendo

No teu colo me entranhando

No teu âmago refazendo

Simplesmente amando

Até unhas gravar

O pescoço morder

Seu nome gritar

E alvorecer

Eterno no teu mar...

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Falta do mar


Tem dias que eu sinto falta do mar

Das formas que ele vem me salgar

Doce

D'ocê

A carne, a alma

Com calma

A ir e voltar

Fosse o que fosse

Uma vastidão sem fim a me devorar

Me percorrer, envolver e tomar

Solto em suas correntes sou mar

Ao somar

Só mar

Sem posse

Só ser

Tecer

Teu ser

Tão mar

A tramar

Entranhar

Extasiar

Minha vontade arranhar

Ah mar

Há mar

Há você

E o meu verter

Que é capaz que te roce

Um tanto te coce

Outro tanto avance

Dance

Não canse

Oceanos ainda

Pois mar não finda

Por ser linda na lira essa lida

Mar de ti é vida

Sete mares profundos de te conceber



sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Chama

Minha mente dança 
 Algo avança 
 Fico ofegante 
 Por um instante tão inebriante 
 Da tela 
 Salta ela 
 O próprio tempo congela 
 E em um rompante 
 Ela segue avante 
 Trança 
 Corpos e ideias 
Não cansa
O peito balança
Passeia
Enlaça
Uma semântica traça
Entra por cada veia
Cada sentido
Cada sinapse
Conforme vai sendo lido
Queima
Inflama
Incendeia a trama
No ápice
Chama
Derrama
Caudalosamente em mim essa poesia
Musa
Minha
Que arranha minha espinha 
Devora minha carne 
Arde 
Invade 
Com tal alarde 
Esse mar 
Até restar 
Só nós dois...

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Festim para o finado fauno 6

 Não sumo

Tô sempre caçando seu rumo

Seu sumo

Sua seiva

Sua selva 

Na relva

Cavalgada 

Conjugada 

Afinal não há nada

Mais grudado que nós dois

Pois somos o antes, o agora e o depois

Poetizando a jornada

Invadindo a madrugada 

Com almas entremeadas 

Maravilha que sois 

Capaz que eu sempre voe 

Nesse eterno te buscar 

Até que consiga rasgar 

Penetrar

Provocar 

Seu moço a morder o seu pescoço 

E me instalar 

Devasso

No âmago do teu querer

sábado, 10 de julho de 2021

Festim para o finado Fauno 5




Dobrei o tempo e o espaço 

Para trazer meu traço 

Ao teu regaço 

Regar-te num amasso 

Nem tudo posso

Mas tudo faço 

Um laço 

Na mão direita

Estranhas 

Mas aceitas 

Minha barba arranha

Enquanto se ajeita 

Assanha

Te deleitas 

Capaz que derreta 

Quando prendo a esquerda 

Sem nenhuma perda 

De um instante sequer

Pois sua maravilhosidade requer

Que verta 

Poesia de mulher 

Quanto mais vier

Melhor

Corpo preso

Alma solta

Vem o peso 

Voltas todas 

A pele arrepia

Os olhos fecham 

O universo invade

No meu verso arde 

Se esfrega 

Suplica mais 

Mordo ainda 

Cobrindo tudo de cima 

Com a rima 

Fazendo o embalo 

O mergulhar até as profundezas mais abissais desse teu mar 

Num único fôlego de mergulhador fascinado pelo infinito 

Fito 

Preso

Amarrado

Pelo seu íntimo enlaçado

Rebolo

No teu colo

Atados 

Remo um gemido descontrolado 

Faminto como o monstro do mito encantado 

Devoro 

O umbigo

O ventre

Os seios

O pescoço 

Devoto

Me detenho 

Seu moço 

Movo 

Colo

Assolo 

Quase um tolo

Ante a deusa do gozo

A bruxa 

No voo 

Me puxa 

Me usa 

Minha 

Desalinha 

Me entranha na vagina

És minha sina 

Assinas 

Fascinas

Desatina 

Cada milímetro ofegante da explosão que encaminha 

Minha

Sua 

Soua

Ressoa 

Entoa

Então 

Se apertam as mãos 

De tremer os chão 

O melaço no vão 

Quentes

Rentes

Inconsequentes

A gente

Que não é desse mundo não...

quarta-feira, 7 de julho de 2021

Festim para o finado Fauno 4




 Basta uma nota

Um som

Seu tom

No meu J

Juntos

São tantos assuntos

Só nossos 

Nós 

Atados 

Na cama

Na trama

Na sanha 

Façanha 

Seria ficar parado 

Que poesia quer tudo colado

Corpo

Pele 

Peito

Alma

Até os traumas 

Me salvas

Tão fada

Tão safada

Tão assenhorada

Na minha jornada

Como quem trança as coxas na cintura do parceiro excitado

Arranhado o pescoço para provocá-lo 

Morde o lábio grosso sambando no falo

Mistura dor e fervor 

Pois esse é da vida o andor 

E sois atrevida 

Sois colorida 

Entre tantas feridas 

Tem as asas

As brasas

As ondas profundas que não cabem nas casas rasas

E que me banham

Me afogam 

Me devoram

De explodir nos teus lábios

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Festim para o finado Fauno 3

 A arte do meu traço

Escapa sempre pro seu regaço 

Como se fosse minha boca

Provando cada pedaço 

Em uma troca louca 

Que começo boca com boca

Parte com parte

A boca no pescoço é minha arte 

Sorver os seios até que o peito infarte

De tão disparado

Sigo descendo colado

Te marcando da fome do meu faro

Até o umbigo

Que tenho comigo 

É o centro de tudo

De onde sigo mudo

Para os teus perigos 

Ricos

Molhada

Melada

Perfumada

Sagrada

A carne macia que se abre para a língua a cada passada

Parando entre lábios 

Pelo grelo em mil rodopiadas 

Ante as coxas escancaradas 

Arranhadas

De mim marcadas

Roxas de tão mordiscadas

As mãos apertando a bunda

Que Volteia querendo mais

Enquanto a língua passeia sem paz

Tu te esfregas profunda para sentir minha cara na carne

Minha volúpia te faz

Refaz 

Recita seu tesão na ponta da língua ainda mais

Teu cais 

Meu mar

Enquanto teu gozo me traz

Banhado na barba

Em nova carga

Que invade e não tarda

Por mais que arda

Penetro

Certo

Te aperto

Com o peso do eterno 

Firme e forte 

De começo lento

Pois tento

Sentir cada detalhe

Te esculpindo com a mão os entalhes 

Te batendo na bunda de bruxa minha safada

Que me puxa e se entrega possuída 

Gemendo do alforje 

Me toma Jorge 

Meu fauno

sábado, 3 de julho de 2021

Festim para o finado Fauno 2


 


Entre sonhos e a realidade, a verdade, as verdades, sem vaidade, é essa necessidade que componho dessa tua reciprocidade, dessa sua poesia que me invade,  me arranha, me ganha, com sua graça tamanha, com esse encaixe,  para além dos campos e cidades, dos normais e sua normalidade, tem o mundo e tem nós dois, na nossa trova, degustando cada prova, provando cada mel que escorre, tomando logo um porre,  bebendo a vida no bico, se lambuzando depois, por esse sol que sois, tal qual lua reflito, teu eu tão bonito, infinito, puro agito no meu peito, no meu colo, no meu falo, nunca calo, te fumo, és meu rumo, te como com as ideias, puxo o cabelo com conversas, te penetro com as rimas, a gente dança com vontade, não cansas, o dançar avança,  pulula, trança as coxas na cintura, há quem jura, que por mais lonjura,  estamos grudados, daí que te mordo o queixo,  te conecto o eixo e me deixo, suspirando no teu eu mergulhado... eternos...

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Festim para o finado Fauno


Sendo o seu umbigo o centro do universo

O rio do meu verso só faz correr pro seu mar

Nesse transversar já assim ao acordar 

Vai a boca buscar passear na possibilidade de te mapear

Contorno firme como o da mão a apertar

Como a volúpia que arrepia ao se entranhar

Daí aperto a tela com o cuidado de quem toca o grelo,  pois ao fazê-lo,  é como tê-lo, entre os dedos

Me deleito

Me entrego

Desassossego até o próprio desassossego e faço,  refaço,  trespasso

Esse nosso laço

No teu regaço

Mergulhado

Até o talo da alma

Como se fosse o falo

Melado na tua calma

De me dominar por inteiro

De grudar meu terreiro

De percorrer com os lábios

De esquecermos de ser sábios

Nesse sábado

Colados e fadados a explodir a própria realidade na terra encantada de nós dois... 

Onde todo depois já é certeza alada

Daí saltam as palavras

Rebolativas e safadas

Prontas pra serem emissárias das semânticas sangradas e sagradas de nós dois...

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Édipo em Colono

Perdido, cego e errante
Cá estou
Outrora rei
Édipo rei
Dito rei
Desdito
O mito
Nada mais fito
Ferido pela cegueira de outrora
Largado mundo afora
Com essa dor que me devora
Vendo a cada hora
O caos em que o mundo jas agora
De Antígona e Ismênia sei
Eteócles e Polinices me faltam
São sempre os machos quem assaltam
Maltratam
Desprezam e atacam
Pobre das mulheres que amei
Cansei
Depois de tudo que passei
Erínias sangrando meus passos
Moiras traçando no meu fio, laços
Desvarios
Do filho de Laio
Jocasta
Nada basta
Nem a besta
Esfinge
Esta ao menos não finge
Sangrada minha carne
Plantou a semente da morada
E em mim vive esse nada
Essa tortura infindável de quem riu da sacada
Do destino
Mas desde menino
Já tinha sua sorte traçada
Preso, ao menos, não mais me sinto
Nem santo
Só pranto
Nunca pronto
Sempre meio tonto
Desponto
Desperto
Incerto
Disserto
O peito aberto
E alerto
Num conto
Meu canto
Que é tanto
Espanto
Nunca, nunca pronto
Remonto
A Tebas
A Corinto
Aqui em Colonos
Em toda parte
E em nenhum lugar
A fortuna há de estar
Nesse oráculo de desgraça por se espalhar
Nesse caos interminável de mar
Que fingem saber os aedos
Nos governam os medos desde cedo
Mas é tarde
No apagar da chama que arde
Enquanto o pano poido que somos se encarde
Desfeito
Um fio de cada jeito
Um frio leito
Só, respeito
E um esvaziado peito
Está feito
Feito está...

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Tudo que você precisa

Tudo que você precisa
Não é a atenção
De uma multidão
Ou mesmo a badalação
A marejada brisa
Independente de onde pisa
Com quem sua a camisa
Que faz diferença
Aquela gente que compensa
Que tem a alma imensa
Pega tudo aquilo que te prensa
E em um rodopio
No abraço
No incomensurável desvario desse laço
O mundo de aço
Inoxidável
Fica amável
Fica leve
Por mais que seja breve
Um sopro
Nunca mais eu vou dormir
Pero no tropo
A vida vai vir
Nunca deixa de seguir
Te envolver até subsumir
Lutar, conter o mar e emergir
Daí que a gente se atreve
E veve
Volve
Dissolve
Dissipa
Um ano
Uma década
Uma vida
Tanta lida
Pranto lido
Parcos tidos
Barcos todos
Palcos bobos
Abraços bons
Bençãos
Abrigos que levo comigo quando persigo o perigo
São
Tudo que eu preciso

domingo, 15 de dezembro de 2019

Cruzados

O teu verso
O teu inverso
O teu transverso
O teu disperso
Isso tudo que não meço
Atravesso
Numa travessa
Sem pressa
A gente começa
Nunca termina
Rima fina
Riso fácil
Lábios
Brios
Desatina
Embaraça
Abraça
A alma...

terça-feira, 3 de maio de 2016

Para lua

Olhando a lua
Toda aquela superfície nua
Fez uma reza
Nos volteios do campo onde atua
Era o que mais presa
Uma prece
Pro que mais lhe apetesse
Um pedido
No peito perdido
Não era santo
Partira o dragão
Mas vagava naquele chão
Arrastava o manto
A lua com seu encanto
Que era tanto
O solo pro seu pranto
E ele esquecido da razão
Sabia que era ilusão
Nunca a teria pra si
Mesmo que morresse ali
Ela era da multidão
Ela cintilava na imensidão
Ele queria abarcá-la em vão
Como um tolo
Que planeja o dolo
Sem ter munição
E seguia a procissão
Mas ele ia na contra-mão
Atirara longe o brasão
Descera do cavalo
Pois a lua não iria amá-lo
Nem mesmo mudaria sua translação
Só iria aceitá-lo
De fato
Por um tempo inexato
Como inexata era aquela paixão...

domingo, 6 de março de 2016

Silêncio e surdez

Dessa vez
Entre os surdos
Pipoca o som com altivez
O ar vibra
Percorre cada fibra
Mas para os surdos
Mudos
Não existe o três
Todo par é zero
Todo lero é avaro
Não raro
Um ódio sincero
Que não quero
Escorre pela tês
Se não crês
Observe a rês
Que nega os absurdos
Fixos no muro
Perdidos no jogo duro
Surdos
Para toda a sinfonia
Intoxicados de monotonia
Competindo e gesticulando
Para enfatizar as palavras que não ouvem
E saudoso do silêncio
Tento trazer à memória alguma cantoria...