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sábado, 16 de março de 2024

Quando a leitura te devora...


 

Folheou as últimas páginas.

- Gostou da leitura? - Ela disse com expectativas. 

- Muito. Achei muito excitante.

- Fico feliz que tenha gostado. Foi um grande desafio.

- E você o superou com talento e requintes de crueldade eu diria. Estou seu fôlego até agora.

- Então recupere logo o fôlego. Temos muito pra conversar.

- Não posso me demorar, a vida me aguarda para me foder sem dó, entre espinhos e chicotadas.. (ele parou de falar pois o metal da algema tinha estalado em seu pulso e ele ficou tão surpreso com aquele movimento tão ágil, que se perguntava se estava alucinando)... o que é..?

- Agora quer falar? - Ela prendeu o outro pulso dele, antes de arranhar as bochechas com nenhum pudor, mas com algum carinho.

- Veja bem, eu fico lisonjeado mas...

- Você deveria perguntar de onde tiro minha inspiração. Mas homens tem dificuldade de pensar com o desejo rondando. Falta sangue ao cérebro de você. (Um beijo e ele já estava entregue). Me inspiro em controlar essa descontrole (os dedos sentiram e correram e a boca foi murmurar ao pé do ouvido). As câmeras vão guardar tudo. Para o meu deleite futuro.

- Assim parece que é um caminho sem saída...

- Ó não. SÃO muitas as saídas. A mão que governa esse melado cajado bem te guia à meta que você deseja. Mas que não merece.. nunca mereceria. Minha carne de tormenta te vê e emoldura, mas você ainda caminha como a cera quente da vela a correr-te a espinha.

- Aaaahhhhh.

- De joelhos. Te deixo. Beba da rainha. O suco mais doce, verdadeiro mel e ambrosia do Olimpo. Fonte de toda a vida. Cavalgo seu ar, seu verbo e sua primazia. Homem de pouca fé. Sou Lilith, a primeira, sou Zulmira, a última. (Os olhos dela brilhavam).

- Delícia, perfeita. Me solta para eu te...

- Prender? Conduzir? Silenciar? Aqui eu te ponho sentado. Enforco seu pescoço, te permito um canto nesse contato. Te fodo. Te como. Te embuceteio. Te apresento o infinito, ser pequeno. Escorrego no íntimo do âmago do movimento mais lento, em que a grossa cabeça liberta da pele se esfrega tal qual cobra para a toca, sem limite de tanto mar que há lá dentro. E tudo segue. Tudo. Até o encontro preciso do limiar dos caminhos. E ali o universo nasce. Rebolativamente. O jeito mais tenso de relaxar, por mais que seus pulsos acorrentados estejam doendo. É me ter que está te acontecendo. Assim vou saindo.. voando.. te renomeando, enquanto meu perfume vai te envolvendo. A erva do meu poder te invadindo as entranhas. E a força é tamanha. Há. Sua pélvis quica, eu já sou furacão te percorrendo. Me morde, me lambe e sabe. Sou a dona eterna agora do seu pensamento. Tudo é pequeno, homem pequeno, ante o poder do meu inspirar te valendo. Por isso você segue. Sou teu horizonte. Sou a potência dessa trepa inigualável, imanente e inconsequente. Sou o precipício e a vertigem. O remédio e o vício. O ventre, a verdade e o abismo. Sou quente. Oceanos eu tenho em cada poente. Não pare, é só terremoto que te aguarda. 

- eu.. não.. 

- Tolo. São assim todos. Tortos. Ao final, mortos. E eu sigo faminta e com um bom livro pra publicar.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Édipo e a Esfinge


Em volta, tudo era o caos. Aquele era um encontro marcado, pois oráculos já o haviam anunciado. Ainda assim, ele não deixou de se fascinar com aquele ser parte mulher, parte felina.
- Aqui está você, viajante. Em breve, serás mais um que terei devorado.
- Guarda teu mistério. Não temo o que possa acontecer.
- Todos dizem o mesmo. E ainda assim, ao fim, eu os devoro.
- Eles devem se perder no seu olhar, nos desenhos do teu corpo, nas malícias das tuas palavras. Mas não eu. Eu nada tenho a perder, por isso nada lhe devo.
- Pobre mortal. Eu destruí Tebas das sete portas, eu devorei os touros de Creta, humilhei os lamassus de Uruk, coloquei de joelhos as dinastias do Nilo. O que poderia você, roto e poido, faminto e cansado, fraco e humano fazer contra mim?
- Decifrar-te. Não é isso que exiges? "Decifra-me ou te devoro"? 
- Sim! - O fogo queimou nos lábios dela. Longamente. Como se fosse a própria eternidade e ele não pode deixar de admirar aquela demonstração de poder divino. Édipo sabia que haviam muito deuses para além dos aliados de Zeus. Alguns buscavam governar os mortais, enquanto outros apenas buscavam consumi-los sem falsos moralismos. Eram tão antigos quanto o primeiro ser consciente.  - Decifra-me ou te devoro. É isso mesmo. Se conhece o protocolo, onde está o presente que impede que eu te devore antes que decifre, quando eu bem quiser? 
- Aqui está...
- Onde estão as coxas fartas do gado ou a vida de uma criança cujas possibilidades guardarei no meu íntimo.
- Trago algo maior... Sabedoria!
A esfinge tomou o livro. Era um tomo mágico. Tratava de um herói anunciado que reordenaria o estado das coisas, para afastar as trevas do caos. Um messias indeciso que romperia as amarras primitivas que iam se acumulando ao longo dos tempos para fazer ressoar uma nova harmonia, que só existiria para ser soterrada, como todas as outras antes dela.
- Isso não é sabedoria. É ilusão. Os homens são sempre tolos, porque são limitados. Veja as marcas no meu corpo, agora pode vê-las melhor. Não são todos que as veem. Elas mostram outras eras, são signos da dor inerente à entropia de existir. Você crê que vem aqui instaurar algo novo. Pobre tolo. Vens apenas mergulhar no abismo do vazio. Se não estivesse tão preso a essas bobagens ilusórias, ao menos poderia gozar da vertigem da queda.
- Não me perco em sua lábia, divindade. Eu aguardo teu enigma. Fiz minha oferenda.
A Esfinge cuspiu algum fogo que consumiu o tomo, erguendo fumaça e cinzas ao céu. Curiosamente, uma brancura mortífera a cercou. Longe de erguer trevas, aquela divindade felina e feminina brilhou como se fosse o próprio sol. Ao invés de terror, foi a magnificência que se impôs e Édipo maravilhou-se como nunca tinha acontecido. Sempre se diz que os mortais que se atrevem são consumidos pelo poder transcendente de tudo que era divino. Ali o destino do mortal Édipo foi selado e não no sangue que ele derramou no caminho. Mesmo que já fosse acompanhado pelas Eríneas, foi nesse ponto que seu rumo se definiu.
- Qual o ser que no alvorecer caminha sobre quatro patas, mas que ao estar o sol no zênite o faz apenas com duas, para já próximo do crepúsculo precisar de três pernas para avançar? Responda com a sabedoria que acredita ter, pois sua resposta será recompensada com toda minha voracidade.
- Eu conheço a resposta, mas não irá aceitá-la.
- Responda ou morra.
- Esse ser é mortal e humano. De manhã, seja mulher ou homem, engatinha com mãos e joelhos próximo de sua primeira mãe, a terra. Quando cresce, liberta-se um pouco dela para seguir apenas com os pés. Por fim, quando principia o findar de seus dias e sua mãe o chama de volta, este apoia-se em um cajado para pode prosseguir.
A Esfinge nada disse. Ela apenas encarou Édipo no fundo dos olhos como não fizera verdadeiramente até ali. Édipo sentiu toda a dor que habitava aquela existência de tantas eras. Mas também sentiu o calor máximo de tantas vidas sorvidas que alimentavam aquela alma. Ele sentiu como se sua alma também estivesse sendo tomada e mergulhada naquele mar morno e brando que apaziguaria suas inconstâncias para apenas servir a algo maior. Não cabia mais em si. Sentiu os lábios dela em seu pescoço, que antecederam as presas que rasgaram sua carne. O prazer foi sem fim. As unhas marcaram suas costas e as mãos dele desceram pelos seios e pelo que havia de mulher naquela forma. Logo, ela estava sobre ele e o dominou totalmente. Por mais que o consumisse, ela deslizava e derrama-se sobre ele de modo a lançar ondas de êxtase pelo espaço. Nada dele restaria, mas Édipo já não se importava.
Foi então que ele abriu os olhos. Viu o céu. Sentia o cheiro doce, as dores pelo corpo. Mais adiante, a cidade de Tebas.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Segunda Fábula Segundo Se...



(Por ali estava o menino. Ali, o menino e seu desatino. Talvez fosse obra do destino.. talvez não. Mas estando ele ali ao nível do chão, seguiu com a procissão até ter uma ímpar visão. Viu, o tal menino, em meio ao turbilhão, um sábio, consultando o astrolábio, lendo os astros e decifrando os meandros da criação...)

- Oi...

- Pois não? Diga logo menino, o que queres saber, ó pequenino.. pois meu tempo é curto e posso ter um surto se me demorar com o que tens a perguntar..

- Ah bom.. bem.. tá bom.. eu nem ia perguntar.. mas já que o senhor falou assim tão bonitinho.. bem.. o que é a felicidade?

- A felicidade é um estado!

- Que nem Minas Gerais?

- Não, não, pequeno órfão.. a felicidade é um estado, como quando quero dizer uma situação.. e por isso mesmo ela nunca é, ela só está!

- Ah tá.. que nem quando a professora fala pra mim.. "sua situação não tá nada boa.."?

- Bem.. mais ou menos.. talvez o entendimento não tenha sido pleno.. façamos assim.. felicidade é um estar sereno como quem caminha num jardim.. e tendo passado o último jasmim, já não mais é.. apenas estava.. restou fé e saudade, mas isso não é nem a metade sequer...

- Então a gente só pode ser feliz quando já passou?

- Assim é pra maioria.. presos no frenesi do dia-a-dia.. pensando sempre no que deveria, enquanto sente o estômago queimar de azia.. mas há quem curta o passeio e a companhia.. mesmo sem saber a que veio, não segue a esteio e para ter paz, faz...

- E como faz?

- Só se se sabe fazendo.. não tem remendo.. conforme vai vivendo, há que crescer o querer desse viver.. ou simplesmente é como os demais que vão esmorecendo.

- Eu vou crescer bastante e ser bastante feliz.. estar bastante feliz.. sei lá... (disse o menino sem nada entender, vendo que o estranho velho já não estava, como se pudesse desaparecer, escafeder, entre toda aquela multidão brava, que passava, sem dar-lhe nenhuma atenção..) Fé em mim há.. e um mar por alcançar...

terça-feira, 24 de abril de 2012

Quatro partes ou leia de trás pra frente...




- Você já foi melhor nisso.
- É verdade. Já fui.. mas ainda sou bom em outras coisas.
- Sim, sim.. claro.. quem foi rei nunca perde a magestade.
- Isso eu não sei.. mas ainda tenho meus méritos.
- Ou desméritos né..
(Risos) - Pode ser.. de qualquer forma, eu faço o que posso.
- Claro, claro.. afinal nessa competição nunca tem vencedor.
- Mas a gente tem nossos momentos né..
- O que seria de nós sem eles.. cigarro?
- Não, obrigado.. você sabe que eu não fumo..
- Não fuma tabaco..
- É.. isso jaz no passado.
- Bom.. eu não perco tempo controlando meus vícios e além do mais..
- Com licença..
- Quem é você?
- Isso mesmo.. quem é você? Isso aqui é um diálogo em um mundo dicotômico..
- Sim, sim.. mas eu sou a terceira parte..
- Terceira parte?
- Como assim terceira parte?
- Terceira parte oras.. um.. dois.. três.. entenderam? Eu achava que vocês fossem mais espertos..
- É difícil.. não estamos acostumados à uma terceira parte..
- É porque vocês vivem nessa velha panelinha.. "nesse romance astral"..
- E pra que serve uma terceira parte?
- Pra mostrar que as coisas não precisam ter uma serventia para serem, por exemplo..
- Muito interessante.. muito interessante.. aceita um cigarro?
- Sim, claro.. vocês tem algo pra beber?
- Não é uma má idéia.. cerveja?
- Nada melhor no meu entender...
- Mas então.. o que você veio fazer aqui?
- Mudar de ares um pouco.. estava muito quente lá do outro lado..
- Ah sim, as coisas são realmente mais frias por aqui.
- Eu diria mais.. frias, certas, estanques, definidas, acertadas, divisadas.
- Pois é.. vocês não me levem a mal, ou a bem, conforme o caso, mas as coisas por aqui parecem meio monótonas, na verdade.
- Diótonas, no mínimo. E a culpa é dele. Fica tolindo os vícios e os prazeres.
- "É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro".. você acha mesmo que não tem seu quinhão de culpa?
- Muito fácil pra você ir chegando e levantando problemas.
- Você não faz idéia dos conflitos que vivemos por aqui.
- Esqueçam.. ele é sempre assim.. cheio de meio-termos...
- Só me faltava essa..
- E você quem é?
- Devíamos é aproveitar e fazer uma festa logo...
- Eu sou uma outra parte qualquer...
- A quarta parte?
- Se você quizer dizer assim... ontem mesmo eu encontrei um grupo de prolegômeros de alicarnassos e eles me chamavam de "elo mais fraco"... ano passado umas concepções escatológicas me taxaram de "letra f".. mas se quiserem me chamar de quarta parte, fiquem à vontade..
- Entendam que as coisas nunca são tão movimentadas por aqui..
- Claro, claro.. aqui é um mundo dicotômico, eu sei como são essas coisas..
- Pois é, a gente tá acostumado com coisas mais harmônicas..
- Tudo tem uma certa harmonia..
- Isso é você quem diz..
- Mas e então, para que você serve?
- Eu já disse que nem tudo tem serventia..
- Mas eu mesmo tenho muitas.. sou pau pra toda obra..
- E qual é o objetivo disso tudo?
- Isso mesmo? Qual é a de você dois aparecendo aqui?
- Eu queria mostrar o interstício que existe entre vocês...
- E eu não queria mostrar nada além de tudo que algumas coisas podem não representar...
- Ãh?
- Que?
- Nada.. tudo.. alguma coisa.. não representar.. ah, e não necessariamente nessa mesma ordem...

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Autópsia...

O cheiro era doce. Estava fria. Carne doce e fria. Ainda macia. Ajeitou os cabelos pretos desgrenhados espalhados com um manto sobre a mesa de metal. Parecia uma espera eterna. Tinha grandes buracos por todo corpo. Os fluídos corporais tinham parado de transbordar.
Ao longe, soavam os ecos distantes dos passos de alguém de todo indiferente.
Os olhos vidrados e vítreos encaravam o teto branco e a luz bruxulenta. Colocou o dedo na primeira ferida. Larga, profunda.. visseral.. permitia identificar a arma cortante manipulada por uma mão pesada de homem bruto que machuca. Certamente foi a primeira. As coisas primeiras.. para o bem e para mal.. são sempre deveras impactantes. Por ali perdera-se sangue, esperanças e vivências. Ainda jorravam quando as demais feridas foram abertas. Fato.
Eram mais sete. Iam do ombro esquerdo à virilha direita. não havendo um padrão além da fatalidade. O último e menor fora justamente o que causara o óbito. Quase um tiro de misericórdia. Um pequenino orificio que ainda tinha as bordas queimadas do calor do metal que por ali passara. Um disparo seco e direto que ela poderia dizer não ter visto de onde veio, nem como veio. Um estalido e está lá mais um corpo estendido no chão.
Uma busca rápida conduziu à bala ainda ali alojada. Não podia ser retirada, parecia encrustada em um osso. Parecia que mesmo morta ela não abdicava da representante máxima de uma sensação. Ela como as outras mulheres era pródiga em se agarrar à vertigem da queda.. dava ares de vôo.. negava o enjôo.. e quando um corpo esquartejava-se contra o solo, um suspiro e não um grito lhe fazia trilha sonora.
Deixou ali a bala.. as feridas ainda abertas que acompanham toda uma vida.. os olhos fixos e os cabelos desgrenhados.. fez as últimas anotações no formulário ciente de que palavras e cicatrizes nunca são de todo sinceras...

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Personagens...

- Era o que eu queria..
- Isso?
- Exatamente, se é que exatidão se aplica..
- Não parece.. eu confesso que esperava algo mais.. grandioso.. épico até.
- Não, não, não.. os épicos estão fora de moda.. os micro-universos já provaram seu valor.. os tempos mudaram.. as espirais se expandiram.. entropia, como eu gosto de dizer..
- Foi seu melhor personagem?
- Não gosto de fazer esse tipo de juízo.. e além do mais, era um bela história.. o enredo é muito importante..
- Determina muita coisa.
- Não sou de determinismos.. mas adoro uma bela paisagem..
- E os outros personagens? Algum marcante?
- Todos.. ao vestir e despir deixam cicatrizes na carne.. cada um.. dos alívios às dores bebi tudo que puderam me oferecer. Alguns me deram fome, mais que sede.. outros, dores mais que amores.. mas nenhum deixou de trazer movimento..
- Você faz parecer uma caminhada.. a la essa longa estrada da vida..
- Tem quem nada.. quem voe.. quem caminhe.. quem corra.. quem paire.. quem pare.. eu vou.. mais a la deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar.. rir pra não chorar..
- Cartola?
- Quando cabem chapéus...
- Bem.. acho que é isso.. obrigado pela conversa..
- O prazer foi meu. Sempre gostei de diálogos. É bom saber que termina assim sabe.. é um jeito legal de terminar..
- Obrigada. Geralmente meu serviço não é lá muito reconhecido..
- Eu acho que não haveria personagem melhor pro final da minha história do que você..
- E quem disse que é o final?

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Fumaça...

(Sorveu a fumaça na escuridão..
Ela dançou..
A fumaça dançou à frente do olhar dele..
Ela virou-se no ritmo da música, dando as costas ao parceiro para que ele pudesse apreciar a linha sinuosa e sedutora que as costas dela traçavam no espaço..
A fumaça recebia as luzes em sua disforme existência cinza esbranquiçada..
Ela demorou a voltar ao ver um corpo parado, na direção dela, mas cujo rosto não se definia por trás da fumaça..
Ele tragou lentamente, tornando a brasa incandecente, ardente e mostrando uma luz no fim do túnel..)
- Vou no bar pegar cerveja.. (ela disse para o parceiro que não a interessava mais e não esperou resposta para buscar a luz..
Ele assistiu os passos rebolados dela, o movimento desdenhoso dos ombros, os cabelos charmosamente desgrenhados, incluindo aqueles que se colaram ao pescoço pelo suor.. tragou soltando a fumaça pelas narinas como faria um dragão..)
- Uma cerveja.. (ela disse apoiando os antebraços no balcão úmido, onde teve atenções imediatas, mas reparando de canto de olho na barba por fazer.. nas sombrancelhas grossas.. nas mãos grandes presas a ante-braços morenos.. no mundo turvo por trás da fumaça..
Ele a viu receber a long-neck que custava cinco vezes mais que o normal, levar aos lábios já sem retoques e exagerar uma refrescância que aludia a comerciais ignóbeis de publicitários sem criatividade alguma.. tragou e prendeu a fumaça por um instante longo..
Ela ignorou o mar de olhares e se deteve na ilha e no vulcão que soltava fumaça, mas nenhuma lava.. ainda..) - Quente né?
- Talvez.. (ele disse batendo as cinzas no chão, olhando para os próprios pés escondidos sob o all-star preto detonado, antes de levantar os olhos e fincá-los nos dela, como se não tivesse porquê ela estar ali.. tragou, enquanto a fumaça se dissipava..) Talvez..
(Ela ficou curiosa com aquela resposta, aquele olhar, aquela boca de lábios grossos e secos equilibrando um cigarro como se fosse um dedo assanhado.. virou-se para ele, espaçou as pernas pra apoiar-se melhor, mas deixando ambos os pés apontando pra ele, e prendeu o cabelo como se quisesse provar algo.. e terminou de dissipar a fumaça existente..) - Talvez? Como assim.. talvez?
(Ele sorriu.. quase com deboche.. soltou a fumaça, que misturou-se ao ar entre os dois, sólida como uma verdade.. achou graça na pose de "quem é você pra discordar de mim e não se submeter à minha beleza" dela.. a fumaça saiu densa, contínua, enevoando o mundo, eclipsando as luzes, cerceando-os dos arredores..)
- Eu falava do lugar.. tá um forno isso aqui.. (ela disse passeando os olhos pela caledoscopia que parecia um mundo inalcançável para além da fumaça.. bebeu mais um gole da cerveja estranhando um pouco tudo aquilo.. aquele cara indefinido.. mas não precisou exagerar, talvez por já ter a atenção pretendida.. talvez por já não haver refrescância possível por ali..
A fumaça parecia começar a se fazer o próprio ar que ela respirava. Enquanto o olhar castanho-rubro dele hipnotizava a atenção dela, a fumaça se entranhava e invadia os poros do corpo dela.. deslizava pelo corpo trazendo arrepios.. condensava os arrepios como uma língua que singra uma vontade..)
- Mas.. e.. bem.. qual o seu nome? (ela disse com dificuldade.. sufocada e excitada.. na falta de ter o que dizer, como se aquilo fosse o último refrear da vontade de pular do abismo, mas que apenas confirma a certeza iminente da queda..
Ele aproximou-se dela na retumbância daquele silêncio.. transformando cada segundo na potência de um desejo lapidado.. e cuspiu fogo na boca dela. Derramou chamas caudalosas.. piras funerais cobriram a carne dela.. a pele, a gordura sob ela, os músculos, os ossos, até mesmo a medula.. com a intensidade de uma super nova estelar.. a fumaça foi rubra por um instante, teve um cheiro mais adocicado.. mas talvez fosse a luz.. logo ela se dissiparia..
E ele tragou.. e soltou fumaças pela narina.. como faria um dragão...)

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Pra fora...


Tenho dormido o necessário. Tenho trabalhado até o ponto de achá-lo supérfulo. Não tenho viajado nem um terço do que precisaria. Tenho digitado até os verbos tremerem nas bases. Tenho falado pelos cotovelos velados. Trabalho o tanto de perceber que não queria estar lá. Tenho estado com os amigos e idolatrado cada fagulha com que eles acendem minha pira. Tenho musicalizado cada pormenor das vibrações da existência. Fico em casa o bastante pra sentir falta da rua.. nua.. da lua.. de uma brisa mais crua. Visto tantos filmes quanto poderia. Tenho tentado fazer o dever, o lazer e o prazer, não necessariamente nessa mesma ordem. Tenho sonhado, esquecido e ressucitado memórias em ecos nobres procedentes do oriente. Tenho esperado uma vida menos inteira, mas enquanto isso eu danço. E amando tudo posso...

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Mal dito ou Para se ganhar asas...

- Não dá pra continuar...
- Sempre dá. Só não dá, quando se desiste.
- Pois é.. eu desisti.. desisti de continuar.. não.. não posso suportar esse sufocamento.. essa.. essa morte lenta..
- Você preferia morrer de uma vez?
- Prefiro.. tanto que estou desistindo..
- Mas.. mas e tudo.. tudo que houve até aqui? Não é posível que não hajam sucessos, cores, amores, encantos.. qualquer merda, porra.. sei lá.. que não te façam querer continuar..
- Ainda que eu pague tributos aos meus suseranos, não sou vassalo de vivências passadas.. eu sou rei de um reino de um único súdito e assino decreto de execução sumária.. o rei está morto, viva o rei.
- Mas e eu? E.. e.. os seus amigos? Seus pais.. eles.. eles nunca vão entender.. se você me mostrar uma única pessoa que concorde com isso...
- A única pessoa que precisa concordar comigo, já concorda..
- Ah é? E eu posso saber quem é?
- Eu mesmo.
- Você fala como se fosse algum maldito auto-suficiente..
- Não.. só sou madito o suficiente.. só isso. Não tenho pretensões totalizantes.. nem devaneios de repousos divinos.. eu só quero um espetacular acabamento.
- Você não pode ser tão egoísta...
- Eu te diria o mesmo, mas respeito seu egoísmo.
- Depois de.. depois de tudo.. de tudo que a gente fez.. chegar aqui, assim.. para me mostrar.. me mostrar esse sangue maquiavelicamento borrifado na nossa tela neoclássica, é.. é só crueldade.
- Pode ser cruel.. mas está longe de ser apenas isso. O fogo quando queima está apenas realizando reações químicas. Não é cruel com o carbono.. só está redimensionando-o em novas moléculas.. "nada se cria.. nada se perde.. tudo se transforma" já dizia Lavoisier.
- Algo se cria, muito se perde, quando tudo se tranforma.. já dizia eu. E eu não sou seu carbono..
- Mas guarda minhas impressões.. a sinuosidade do meu traço.. o peso da minha mão.. o sulco das minhas marcas.. e logo, as cicatrizes dolorosas do meu fogo.
- Todos os fogos, um fogo.. me avisou Cortazar..
- Avisos nunca adiantam.. só tensionam a carne à sofrer com a dor.
- Eu devia saber..
- Você sabia. Luta-se para agregar, mas só há entropia pela frente.
- Você já disse que eu era sua entropia.. mas disse como se fosse algo bom..
- Sim. E tendo bebido dela, eu agora vou me afogar num buraco-negro... sempre foi bom, até quando não era. Das nossas desgraças eu colhi o colorido que borrifei a vida.. das nossas alegrias, eu fiz alicerces para uma escada até o infinito.
- Então por quê? Por quê?.. Você é só um tolo que quer comandar até o final.
- Eu sou só um tolo.. um tolo que não aceita o final pré-escrito.. não se prende a estruturas ancestrais.
- E por que tem de ser esse o final?
- Não tem.. e é por isso... (e um leve vento bateu e ele caiu no precipício...)

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Perfeita...

Foto by Tuta

Ali estava Lúcia. Encolhida no canto. Coxas junto a barriga. Sem luz, estava Lúcia no escuro, encolhida por não ser a escolhida. Sentia-se uma trouxa de uma figa.. trinta e oito vezes trouxa. Sentia a extensão de cada ferida em sua carne perfeita, carne tão afeita, carne de quem se ajeita, mas serve de modelo. Mas como alguém a rejeita, ela não aceita e desmodela a própria virtude. E ainda assim não chora.. Lúcia apenas devora a angústia nas trevas. Queria cigarro, injeções, bebidas, pílulas e qualquer outro vício que passasse pela frente. Queria mil homens. Não queria nada nem ninguém.

Fazia mais de uma hora que ele saira. Ela continuava na mesma posição, prostada no chão. Fazia mais de uma hora que estava assim. Fazia mais de um mês que sabia. Fazia mais de um semestre que não ligava. Assim pensava. Fazia mais de um ano que só circulava. Fazia mais de trinta que tinha esse sonho. Costas na parede e mãos sem motivação. As palavras dele ainda ressoavam catastróficas nas idéias dela. As idéias dela ainda soavam catastróficas para qualquer perfeição. Palavras vermelhas na carne azul dela. De amarelo só o ambiente. Pensou em levantar, mas logo desistiu.

Escutou passos no corredor lá fora. Mais algum vizinho chegando ou saindo. Que importa? Quem se importa? Estava de mãos e asas atadas em raízes seculares. A culpa era dele? Tanto era, que ela nem poderia isso achar. A culpa era da vida. Da primavera. Da crise nas bolsas. A culpa era mesmo do início.. malditos prenúncios dos fins. Continuava sentindo a poeira sobre os tacos soltos do chão, onde deviam estar os alicerces de seu castelo. Jurou pela oitava vez que nunca mais passaria por isso. Era apenas no décimo primeiro juramento que ela perdia a crença neles.

Empurrou o mundo na esperança que a normal a empurrasse para a vida. Mas apenas sentiu todo o peso do mundo em suas costas. De nada lhe servira até aqui ser perfeita. Ser perfeita só trazia sofrimento. Sofrimento que maculava sua perfeita aspiração.

Pois feita. Pós fato. Pré-aceita. Não peita. Não pita. Não par. Ímpar feita, voou escutando a campainha...

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Eu e minhas páginas em branco ou Vermelho...

Eram realmente muitas páginas, ele pensou olhando aquela brancura vasta e imaculada. Lembrou-se de quando rolou nas colinas cobertas de neve nos vinhedos de Assis. Lembrou-se da igreja que fora destruída pelo terremoto. Ele era sempre isso.. páginas em branco e memórias desbotando. Olhou as horas no relógio, mais para desviar o olhar da brancura do que por se preocupar efetivamente com a passagem do tempo. Suspirou, enquanto ela entrava fazendo o ar parar.
- E então?
- Nada...
- Quer um cigarro?
- Já fumei oito.
- Sabe o que dizem...
- Nove pra dar sorte?
- Noves fora zero.
- Quem diz isso?
- Meu avô.
Ele resignou-se, pois se vinha de um avô, alguma sabedoria devia ter aquilo. - Certo. E seu avô fumava muitos cigarros e escrevia muitos livros, eu suponho.
- Não. Mas assim como você, ele contava histórias.
- Mas é muito mais fácil quando se está só entretendo uma criança e não ganhando o pão nosso de cada dia.

- Se você diz.. - ela disse parando para acender o cigarro, protegendo a chama com a mão em concha e mudando a perspectiva do assunto. - Eu sempre adorei as histórias dele. - soprou a fumaça como se isso fosse um argumento. - Elas sempre me faziam pensar que tinha mais coisa que eu queria saber.
- As boas hstórias são assim.. - ele disse aquilo sem se importar nem um pouco, enquanto tilintava o indicador na tecla tão indiferente quanto ele. - Eu queria ter uma boa história pra contar...
- Por que você não conta sobre a vez em que matou o dragão? - soprou a fumaça que formava uma densa névoa ao redor dela, como se o ar fosse a página daquela personagem.
- Eu não mato dragões... - ele disse abanando a fumaça.
- Bom.. então você pode falar sobre quando fez a lua descer no lago só pra me provar que ela não era de queijo.. e que não tem nenhum coelho estampado nela.. - ela soprou a fumaça pelas narinas, enquanto apoiava o cotovelo fumante numa palma de mão, de forma aristocraticamente ereta, tornando a névoa rebuscadamente vermelha, como um manto ou um par de asas cor de sangue.
Ele riu achando uma graça boba dela.. - Ninguém quer saber das nossas intimidades.. isso só tem graça pra nós dois...
- E não é um bom começo?
- Sou horrível com começos..
- Querido. Não importa o que você conta.. é como você conta, que conta. - a brasa incadecente quebrou o silêncio fumegando possibilidades, alaranjada no mundo vermelho-neon como um bordel de beira de estrada.
O dedo dele apertou um "S".. depois um "e".. - Mas falta a matéria prima... - "espaço"...
- Ela nunca falta. Ela só sobra. Ela afoga. Ela queima. Ela teima. Ela assoma. Ela roga. Ela droga. Entorpece. Agora.. - e tomou o indicador dele colocando no umbigo dela.. - Faltam olhares e explosões incandecentes de lava... - ela sentou no colo dele recolhendo as asas e deixando o mundo dele abafado sob sua cascata flamejante. O dedo subira do umbigo para os despautérios dela. - Tenho uma matéria prima pra você... - e riu diabolicamente...
- Eu conheço essa história - ele sorriu com ironia esquecendo de ser gaivota num céu azul, como se isso pudesse defendê-lo.
- Ah... mas eu nunca te contei ela desse jeito...

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Pedaços ou Um bêbado, Um equilibrista...

- Foi ali.. aquilo? Quer saber daquilo?.. Bem, o que dizer daquilo se não que é um pedaço... não pode esperar que atente para tudo enquanto passo.. se eu me engraço, me embaraço, me amasso.. e convenhamos não sou nenhum devasso.. mas confusão eu raramente caço.. ela é que me caça.. coisa danada de sem graça.. mas é corriqueiro aos dessa praça.. mais achegados a uma cachaça.. servirem de caça pra confusão.. que raramente tem perdão de quem não só anda grudado olhando pro chão...
- Cruzes.. tudo isso pra dizer que era um pedaço? Putz.. tenho medo de perguntar pedaço de que..
- Pedaço.. do meu traço.. um certo erro crasso.. que eu agora rechaço..
- Agora rechaça?
- Sim, que em mim...
- Para, para parapara!!!
- Ora mas...
- Como você se livrou daquela massa amorfa e sonora borbulhando na calçada?
- Entenda, que sou poeta e quando algo me afeta...
- Você precisa fazer essas riminhas chechelentazinhas?
- Se minhas riminhas, lhe parecem chechelentazinhas.. o que quer que isso signifique, não espere que eu abdique, das verbalidades minhas, para que sua percepçãozinha, lhe permita, que confortável fique, estagnado como um dique, enquanto faço um convite, para que transcenda um limite e é isso que evita...
- Não sei se entendi bem.. mas se você puder ser menos.. confuso.. enfim.. aquela coisa gemendo e sangrando e borbulhando na calçada não é do tipo que a gente vê todo dia...
- Entendo sua agonia, sois do centro e eu da periferia.. daí tua falta de simpatia ante a minha prosa vadia.. mas no teu jogo não entro, que eu muito mais descentro.. continuidades arrebento.. sigo com o vento.. e as borbulhidades ficam pelo caminho..
- Borbulhidades? É assim que você chama aquil...
- Chamei agora, mas em outra hora, chamarei diferente, pois tanto me passa pela mente, que pode ser que outra expressão eu invente, afinal por mais que tente...
- Certo... certo.. bem eu preciso ir indo e.. foi um prazer.. um prazer bizarro, mas interessante.. eu acho...
- Eu sorrio, que pro teu pio, tem muito canto.. se te assuta o encanto, não está preparado praquilo que janto.. pros volteios do meu assovio.. vou ver o céu que sabre no estio após mais parto, que dessa obliquidade estou farto.
- Ei, ei.. pera aí.. parto? Você pariu aquilo? Puta que pariu, não acredito, tenho que contar isso pra...

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Perfeição ou Impecável

Linda. Não andava, dançava. Não dançava, bailava. Era daquelas acostumada a ser desejada. Homens olhavam-na nos olhos desejosos de abatê-la, mas, ao fim, conformavam-se de contemplar sua sinuosidade. Ela se insinuava, apenas para vê-los morrer de sede. Dava-lhe prazer vê-los desejosos até mesmo da poeira de seus passos, mesmo se os pés não tocavam o chão. Sorria e os olhos brilhavam num tom mais forte.
As amigas a invejavam, ela bem sabia.. nem todas por mal, mas essas ela pouco considerava. As inimigas também a invejavam, ela bem sabia.. a achavam a rainha do inferno. Mas uma rainha. Mal sabiam que ela era ditadora unívoca de qualquer que fosse o reino. E era quente realmente.
Era generosa em compartilhar seu sorriso e sua suntuosidade. Isso inflava-lhe o peito. Usava de ardis para dobrar a todos, tinha muitas armas. Tinha a fama das damas intocáveis. Tinha a chama. O charme e a simpatia. Tudo acontecia quando sorria. Não que habitasse o Olimpo, mas era como se andasse pelo mundo para desencaminhar os homens e irritar as mulheres. Cochichos a precediam e chegavam após sua passagem. Conhecia todos e de alguns até gostava.
Tinha descontos. Pão quentinho. Preferência. Bom lugar. Atendimento requintado. Presentes por todo lado. Flores no apartamento de nomes que lhe eram estranhos. Tinha boas notas. Os homens tratavam-na por uma abreviatura insinuante. As mulheres por um diminutivo desnecessário. Desesmpenho invejável sem qualquer gota de suor. Sonhavam com seu suor. Sonhavam com sua carne. Elogios de desconhecidos. Avaliações agradabilíssimas. Sucesso invejável. Declarações apaixonadas de estranhos completos. Suspiravam por ela. Desejavam-na.
Perfeita.
Pois feita.
Se enfeita.
Se deleita.
Se ajeita para alguém sempre à espreita.
Já que ninguém a conhece.
Ela convence que é exatamente o que lhe apetece.
Parece a própria personificação de suas preces.
Não parece?
Mas padece
Porque da "plata" nunca desce
E esquece
Que toda estrela brilha
Mas logo acaba a pilha
E se você vive em uma ilha
A beleza arrefece
A carne endurece
Acaba a quermesse
E não resta vitória
Só a memória
De uma história
Com uma vilã impecável...

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Desentendimentos ou De saída...

(Ele a olhou entrar com aquela arrogância de quem não deve nada a ninguém..)
- Boa noite.. (ele disse em tom de ofendido, vendo-a trazer os sapatos nos dedos da mão direita, um cigarro equilibrado nos lábios, a bolsa pendendo pra frente e as chaves na outra mão ainda junto à porta...)
- Ah.. oi.. você não devia fazer essas coisas.. eu posso me assustar algum dia.. parece um fantasma com essa cara pálida no meio do escuro.. (ela disse sorrindo desajeitadamente, tentando parecer ereta e equilibrada e fechando a porta. Isso, no entanto, provocou a queda de um dos sapatos.. ela sorriu mais largamente e se abaixou despudoradamente para pegá-lo.. ele olhou pras coxas dela e imaginou grandes roxos sob a meia-calça na penumbra.. imaginou o cheiro do suor misturado ao dela, ao tabaco e ao alcool..)
- Acho que não vai haver um dia! (ele disse tentando ser ríspido, mas sendo apenas seco..)
- Ãhn?! Ah.. bem.. (ela disse ficando ereta mais uma vez, sentindo uma tontura que pareceu mais importante que tudo até ali e tendo a impressão de sentir um cheiro..)
- Não está nada bem.
- Sim.. sim.. eu sei.. é que.. (ela apagou o cigarro contra as costas da porta numa quadratura já repleta de marcas negras pontuais..) .. desculpe.. eu limpo amanhã..
- Não precisa. (ele se levantou..) Eu tô indo embora..
- E pra onde você vai? (ela largou os sapatos no chão e tirou a bolsa com a outra mão..)
- Vou voltar pra casa.. de certo modo...
(Ela riu por dentro..) Pra SUA casa? (mas seus lábios apenas tremeram..)
- De certo modo.. eu vou.. tenho de ir.. não posso mais ficar nesse lugar com você...
- Claro, claro.. (ela disse se permitindo sorrir, dando de ombros, enquanto ia para o banheiro..) Pobre de você.. tão puro e imaculado antes de ser estuprado pelos meus maus modos... (ela baixou a calcinha, deixando a porta aberta e sentou-se no vaso...)
- Você podia ter tido alguma consideração por..
- Pela sua imaculada perfeição? Pelo seu cabelo bem penteado? Pela porra do teu carro zero? Ou quem sabe, pelos filhas da puta dos seus papais... (as palavras dela mesclavam-se ao som da urina encontrando a água parada no fundo do vaso.. seguiu-se o som da descarga e o do rolo de papel higiênico que é puxado..)
- Pelo meu amor.. (ele murmurou indo em direção à porta antes de puxá-la..)
- Mas eu tive.. (ela disse vindo do banheiro..) Eu comi o seu amor.. mastiguei cada pedacinho.. me enfastiei dele.. dormi perguiçosamente a cesta.. depois vomitei como cachorra apenas para comê-lo de novo.. e depois o expeli nas minhas fezes, na minha urina e no meu suor.. (ela alcançou a bolsa e tirou dela o isqueiro e a carteira de cigarro..)
- Mas eu prefiria ser saboreado.. curtido.. (ele disse deixando correr uma lágrima solitária..) Eu queria que você me amasse e não que me devorasse..
- Ora, meu bem, pois vá tomar no cú você e seu amor de principezinho acastelado.. aqui é o mundo de verdade.. amor movido a combustível batizado e altamente poluente.. (ela soprou a fumaça satisfatória da primeira tragada..)
- Você precisa dessas metáforas ridículas.. (foi o rancor que falou por ele..)
- Por que não? Não tenho medo de fazer comparações..
- Claro.. você e sua sábia experiência.. suas podres experiências..
- Pois é.. mas você bem que gostou.. (ela disse sorrindo com malicia, batendo a cinza no chão e voltando a tragar com um brilho felino nos olhos..)
- Eu.. eu.. eu estava.. intoxicado..
- Claro.. claro.. "é sempre mais fácil achar que a culpa é do outro..".. ou melhor.. é sempre mais fácil achar que a culpa não é nossa...
- Eu fiz tudo que eu podia.. enquanto você..
- Não, queridinho. Eu SEMPRE faço tudo que posso.. você, por outro lado, começou a parar de fazer por só se preocupar com o que eu faço..
(Ele preferiu virar-se mudo, xingando-a apenas com os olhos, enquanto passava pela porta.. mas à frente ele viu a moça a quem tinha pedido que aguarda-se. Ela era quase imperceptível nas sombras.. parecia fazer parte delas.. ela sorriu pra ele..) - Pronto?
- Sim.. (ele disse tentando esquecer o que se passara.. pensou com otimismo no que o aguardava..
Em outra direção, alguns passos para trás, uma mulher entrava no próprio quarto e encontrava o cadáver com uma bala nas idéias e os miolos vermelhos de forma impressionista estampados na parede...)

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Amor à primeira vista ou Roubei essas palavras de lábios que nunca as pronunciaram...

(Eu também estava ali, perdido no fim do mundo, da janela, contemplando a procissão de gigantes que seguia pelo céu em um cortejo fúnebre...)

"E a outra... a última... acho que me apaixonei por ela. De leve. Não é bobo? Era como se já a conhecesse. Como se fosse minha amiga mais antiga e querida. O tipo de pessoa a quem se pode contar tudo, até as piores coisas, e ela ainda gostará de você. Porque o conhece. Senti vontade de ir com ela. Queria que ela me notasse.
Então ela parou de caminhar. Parada sob a lua, olhou para nós. Olhou para mim. Talvez estivesse tentando me dizer algo, não sei. Não devia nem saber que eu estava ali. Mas sempre a amarei por toda minha vida." (Gaiman, Neil. Fim dos Mundos. São Paulo: Conrad, 2008, p. 156/7)

(Os olhos dela tinham o pesar de uma lua crescente sangrenta. E o cabelo dela escondia mais mistérios sombrios que a vastidão do universo. Não havia lágrimas correndo pela pele alva como o mármore de um túmulo. E naquele rosto sem linhas se fazia a expressão que tudo diz de tanto que cala. Como não amá-la? Trazia as mãos unidas, à frente do corpo, sobre o ventre. Alguns fios desajeitados cortavam a face. Era bela como a necessidade de uma alma, que no afã da liberdade, morre no beijo da amada.)

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Poder ou Quem dera...

Poder
E suas possibilidades...

(Ele girava algumas idéias entre os dedos. Alguns medos entre as narinas. O peito ofegava como só o peito de um fumante fazia. Girou um olhar como uma bailarina que quer impressionar. Bebeu como quem bebe pra esquecer. Não esqueceu. Não impressionou.)

Podre
E suas podridões...

(Escarrou verde musgo. O chão era marrom-amanhã-morreremos e grudento. Havia sujeira que faria as baratas desvalorizarem tal imóvel. Um panfleto amassado ainda tinha vestígios da droga. O cheiro de urina fazia tudo parecer ainda pior. Amarelo-desgraça.)

Pode
E suas posições...

(Estava ereto. Estava convicto. De tão abalado. De tão embalado. De tantos vícios. Estava curvado. De tão ensaguentado, estava vazio. Oco. Era pouco. Nem estava de tanto que era. Ele tinha a fera e nenhum bela, rosa ou maldita maldição.)

Pó
E suas poeiras...

(Sujeira. Cinzas. Cocaína. Sujeira. Café. Riscado. Giz. Sujeira. Cinzas. Sal. Sal. Sal.)

Dê
E suas dicas...

(Quem tropeça levanta. Quem almoça desiste da janta. Quem canta seus males espanta. Pra que um pouco se a vida é tanta. Amassou e jogou tudo no lixo. Prolixo. Prefixo. Dante.)

R
E seus erros...

(Levantou. Deixou o que restava na garrafa. Ninguém viera. Já não é mais primavera. Só o inverno impera. Quem dera.. quem dera. Cheirou o que restava. Fumou a última guimba. Lembrou-se do último amor. Colocou as cadeiras sobre a mesa. Apagou a luz e foi-se. Nem mais, nem menos...)

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Febre ou Tremer...

Era daquelas noites quentes. Queeentes. O ar parecia estagnado. Nenhuma brisa. Nenhum sopro. O vento parecia uma ilusão tola de crianças. Abriu a janela esperançoso, apenas para se decepcionar. Desejou ouvir o mar quebrando na praia, mas não havia corpo d'água qualquer próximo dali. Apenas concreto e asfalto. Concreto e asfalto cinzentos, secos, empoeirados. O ar tinha o peso da fuligem que carregava.
Deixou a janela e urgiu para a cozinha. Acendeu a luz branca que resplandeceu nos azulejos brancos, na geladeira branca, no mármore branco da pia. Quando parou ali sentiu as costas molhadas. Se libertou da camisa já aberta como quem luta com uma camisa de força. Deixou-a cair no chão. Abriu a geladeira.. o bafo frio chocou-se contra ele como a lambida de uma ninfa. Segurou a garrafa, outrora de uísque, cheia de água gelada e levou-a aos lábios, sentindo o prazer quase doloroso de tê-la nas mãos. Deixou cair um pouco, que descendo pelo queixo, pingou pelo peito, traçando linhas sinuosas de um alívio fulgaz. A água desceu-lhe pela garganta como vida em estado líquido, revigorando cada pormenor de suas entranhas. Passou o antebraço na testa suada como quem poderia, agora, enfrentar um exército de Titãs. Devolveu a garrafa e fechou a geladeira. Foi só então que tudo escureceu...
Alguém apagara a luz e quando ele se virou, sem nada ver com as pupilas por demais contraidas, sentiu uma tênue brisa de um corpo que moveu-se mais rápido que ele, já esperando sua ação. Vindo de trás, um lenço ganhou-lhe os olhos. Levando as mãos assustado, toucou os pulsos graciosos. Sorriu..)
- Você..
- Shhh... (ela disse simplesmente ao pé do ouvido dele, aproveitando para mordiscar a orelha, enquanto apertava o nó contra a nuca dele. Ele ainda pensou em falar, mas sorrindo entrou no jogo..
As mãos desceram da nuca para o pescoço e dali, unhas ariscas atiçaram e arrepiaram durante todo o caminho até a nádegas. Um aperto, por baixo da cueca e da calça. As mãos passaram à frente libertando-o da calça. Ele já sentia vontade de fazer algo e virou-se na esperança de surpreendê-la. Ficou no vazio sem deparar-se com ninguém e quase tropeçando na calça ainda enrolada nos pés. Levou a mão à frente apoiando-se na geladeira, quando sentiu as mãos dela retornarem e abaixarem a cueca.)
- Assim é sacanagem.. você está.. aaaaai.. (ele gritou sentindo os dentes na nádega esquerda..)
- Eu disse.. shhh!!! (e sorrindo ela subiu deslizando o corpo sobre o dele, deixando as mãos assanhá-lo e fazendo-o esquecer como, ou não conseguir, falar... cravou os dentes no pescoço dele, fazendo-o gemer e sentindo o gosto salgado e o cheiro de loção pós-barba. Virou-o de frente e irrompeu os lábios com um assalto vertiginoso. Já não havia mais como definir onde um começava e o outro terminava, sabia-se apenas que a geladeira tremia, que os corpos suavam e a escuridão era total...)

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Diferenças ou A um show do the doors...

(Muitas vezes fora assim. Tantas. Quase como em um samba de uma nota só. A cadência de um descompasso inerente ao ritmo quase estagnado de uma longa duração. Se são as espumas do mar que marcam o cotidiano, as águas abissais seguem na constância das correntes marinhas, fazendo dos abruptos tsunamis pouco mais que irrupções precisas de um oceano caudaloso. Muitas vezes fora assim.. tantas...)

- Essa foi a última vez!
- Desculpa, não era isso que eu queria.
- Você sempre diz que não é o que queria, mas aqui estou com minha fúria e minhas lágrimas!
- Desculpa, eu sinto muito. Mas eu precisava tanto...
- É sempre assim. Sempre é o que você precisa...
- Não é sempre o que eu quero. Quem me dera fosse. É sempre o que nós conseguímos...

"C'mon, c'mon, c'mon, c'mon now
Touch me, babe
Can't you see that I am not afraid?
What was that promise that you made?
Why won't you tell me what she said?
What was that promise that she made?"

- É isso que nós conseguímos? Isso não é o que eu quero. Eu quero tranquilidade. Sobriedade. Felicidade.
- Eu quero liberdade.
- E você não tem? Você não está aqui?
- Sim. Mas não da forma que poderia ter sido.
- Eu não queria estar aqui.
- E quase não esteve...
- Por que precisavam de mim em outro lugar...
- Eu sei.. e aceito isso... liberdade.. pra você e pra mim. Mas pode guardar a tranquilidade e a sobriedade... eu quero viver todos os conflitos e diálogos que tenho direito...

"Now, I'm gonna love you
Till the heavens stop the rain
I'm gonna love you
Till the stars fall from the sky
For you and I"

- Uma hora eu não vou aguentar mais.
- Eu farei tudo para que isso não aconteça.
- Não.. você faz tudo para que aconteça. Você faz só pra me provocar!
- Não. Eu faço só pra me provocar.
- Você só pensa em você!
- Eu só penso a partir de mim... e o que mais penso é em você...

(O ar parou de vibrar com as palavras e arrefeceu ao ritmo lento das respirações pesadas. Haviam olhos que fitavam o céu e olhos que fitavam a terra.. e um mar entre eles. Havia uma névoa da fumaça do cigarro, densa e branca. Havia rio de bebidas alcoólicas e comprimidos de todas as cores do espectro luminoso tornando o piso um tabuleiro de War para dois jogadores.)

- Você precisa mudar.
- Eu mudo o tempo todo. Eu, mudo, o tempo todo.
- É só o que eu te peço... é tão difícil fazer algo que eu te peço?
- Eu sempre mudo.. sempre mudo com você.. mas não posso mudar para você, isso irá me emudecer por completo.
- Você é tão egoísta.
- Sou.. me desculpe.. mas eu não saberia me ser de outra forma, que não essa inconstante dízima periódica.

"C'mon, c'mon, c'mon, c'mon now
Now touch me, baby
Can't you see that I am not afraid?
What was that promise that you made?
Why won't you tell me what she said?
What was that promise that she made?"

- O cansaço me domina. Todas as vezes. Sempre. Do mesmo jeito. E eu não preciso disso.
- Eu sei. E eu queria que nenhuma liberdade minha fosse libertinagem com a sua vontade. Mas somos tão diferentes, que todos os nossos sentidos formam ângulos oblíquos.
- Então talvez seja melhor parar de teimosia e desistirmos...
- Eu prefiro seguir tentando.
- Assim eu não terei tranquilidade..
- Nem eu terei liberdade, mas faz muito tempo que eu escolhi você a ela.

"I'm gonna love you
Till the heavens stop the rain
I'm gonna love you
Till the stars fall from the sky
For you and I

I'm gonna love you
Till the heavens stop the rain
I'm gonna love you
Till the stars fall from the sky
For you and I..."

terça-feira, 8 de abril de 2008

Estou perdido ou A vida é a arte do encontro

"A vida é a arte do encontro
Embora haja tanto desencontro..."

- Estou perdido...
- Perdido?
- Perdido...
- Você?
- Sim.. eu!.. Perdido..
- Estranho...
- Eu sei... mas na verdade já não o é tanta assim...
- Ia dizer que voê parece bem aí pra mim.
- Mas não estou...
- Como não está? Eu posso pegar em você.. veja...
- Mas isso que você pega não me é de todo...
- Ah é? E o que te seria que não isso? Seu espírito?
- Não.. meu espírito eu penhorei a tempo demais pra fazer qualquer diferença...
- Claro, claro.. posso fazer só um parenteses rapidinho.. valeu.. hoje você tá muuuito estranho... continuando.. e onde você está então?
- Não sei.. como comecei a dizer.. estou perdido..
- Perdido de você mesmo?
- Ora se não é só de mim que poderia sê-lo...
- Precisa de ajuda para procurar?
- Seria um tanto inútil a bem da verdade...
- Faz tempo?
- O que?
- Que está perdido..
- Não.. nem tanto.. eu poderia lhe dizer que uma década, mas seria leviano.. poderia dizer que a 3680000 trilhões de gerações de bactérias A5V7 mas seria rebuscado e barroco...
- Você está realmente estranho hoje... mas e então vamos procurar?
- Já lhe disse que é uma busca sem sentido...
- Ouvi dizer que estas são as melhores.. aquelas que duram uma vida inteira..
- Ou mais...
- Pois é...
- Das que pra aguentar só com boa companhia...
- Era o que dizia aquele sambinha...
- Não.. ele dizia que sem um cigarro, uma cachaça e um carinho ninguém segura esse rojão...
- É mesmo... bom, aceita a companhia sr. Perdido?
- De muito bom grado.. é por cá o caminho da perdição... além da cúpula do trovão nas imediações de Pasárgada... mas aviso que vai ser eterna errância..
- Então nós teremos muito o que conversar....

"Não sei onde eu tô indo
Mas sei que eu tô no meu caminho..."

quarta-feira, 26 de março de 2008

Poesia de um descompasso ou Ecos das diferenças...

(Meio embolado, nada preciso de tanto preciosismo... tudo meio assim caótico e melancólico. Ontem passaram a noite juntos, mas ela estava tão distante, tão longínqua... não menos amável, mas menos envolvida... foi isso, assim que a relação ia desmoronando e ambos assistindo sem qualquer assistência... faziam escoras, reforçavam a estrutura, mas cada vez caía uma lage, um pedaço, abria-se uma fissura... logo desmoronaria por completo e cada um seria vítima desse amor que acabara, pois não podiam correr ou refugiar-se dele.. esse amor que os prendia.. no abismo do qual cada um pendia, para permanecer pousados nalguma companhia.)
- Estou sentindo que nosso amor está se fragmentando. (escaparam as palavras pelos lábios ressecados dele..) Parece estar se desfazendo nas minhas mãos... eu não imaginava isso.. não queria que fosse assim.. se você não confia em mim.. (olhos buscavam olhos que buscavam portais..) se acha que eu não te amo mais, tudo deve terminar..
(Ela concordou) - É o que parece.. e você não sabe como eu queria confiar, simplesmente porque confiar foi tudo que eu sempre fiz. (pontuaram lágrimas fazendo intertícios..) Mesmo quando você desfazia minha confiança em versos.. (iam continuando a conversar sobre eles dois, sobre a dor dessa separação.. cada qual narrando a dor de se dar a ler..)
- Eu te dou tudo. Meus dias, meu tempo, meu amor. Meu cotidiano, meus amigos, minha família, minha casa, meu louvor. Eu sou teu.. todo dia, toda hora, mas você não se sacia.. é como se você tivesse um milhão de moedas e se queixasse porque eu dei uma só a alguém num sinal...
(A cabeça dela expressava a negação, onde cabelos ganhavam ares de escudo e a estática moveria turbinas..) - O que importa é que me magoa e se você me ama não deveria querer me magoar.. dói ver você derramando águas por quem não chove pro seu mar... sua lírica é como uma prostituta de baixa auto-estima, engraçando-se a cada promessa de amor de 30 reais...
- Minha poesia é a minha narrativa de meus embates, meus contrastes, meus mergulhos e minha assepsia.. eu diria as mesmas coisas em verso ou prosa.. não há perniciosidade intrínsica à poesia... enfim... no fim parece ser assim que termina... já que não prometo uma vez mais findar a verborragia. Se te parece que é isso que nos separa.. não é... não ao menos o que me distancia do seu horizonte. O que está nos separando, aos poucos, um pouco mais a cada dia, é essa enorme diferença de pensamentos.. essa minha necessidade vadia, louca de viver todo dia... e a sua de ter família, casar e constituir uma vidinha tranquila... e a gente se ama tanto, tanto... tanto... (o último tanto fora fraco como um pedido de socorro..) Mas nem sei se é possível mais, porque não aguentamos mais os sacrifícios que fazemos um pelo outro... tantos.. embora o outro sempre os valorize ao desvalorizá-los na poeira dos próprios passos...
- Isso não me importa mais.. (ela disse expressando o quanto importava.. o quanto doía..) Você faz o que quiser com a sua vida... eu não quero mais ela... dá trabalho demais limpar a lama que você faz pra voar... (e fechou os olhos em busca do esquecimento sadio que haviam ensinado num almoço de família..)