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sábado, 8 de agosto de 2020

Sobre ser pai 8


Ser pai é coisa profunda

É limpar a bunda

Escovar o dente

Saber que tudo depende

E, de repente,

Ensinar a ser independente

Abraçar quando a dor for pungente

É esperar ali logo em frente

É torcer pela gente

Proteger da parte imunda

Explicar que maravilhas abundam

Mas que na tormenta

Os mais fracos que afundam

Que a gente tenta

Mesmo se tudo mais desalenta

A gente enfrenta

Se reinventa

Espera

Que uma hora a poeira assenta

A parada é lenta

Mesmo com a barulheira frenética

Dança

Tudo balança

João nunca cansa

Ana também

Mas colo sempre cai bem

Aprende a dividir esse trem

Irmão é a companhia mais longa

Nessa tonga da mironga

Irmandade vai bem

E à paternidade convém

Serenar furacões

Adoçar os limões

Sorrir aos borbotões

Voar com os dragões

Decorar as piores canções

Brigar em algumas situações

Problematizar sempre que houver opções

Sabendo como a gente está amarrado

Não pelo fio

Mas por esse querer bem alado

Que mesmo depois que o pai parte

A gente sente que tá lá...

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Sobre ser pai 7 ou Chegou o João

O que falar de João?
Tranquilão
Glutão
Dorme de cansar o colchão
Vermelho como um pimentão
Chegou para alargar o coração
Da mãe e do pai bobão
Que se admira com a situação
De aprender com a própria criação
De ser o que pode ser enquanto faz serão
É doce a tal da ralação
O mundo é bão João
Mesmo com tanta confusão
Mesmo tendo de lutar pelo pão
Mesmo parecendo tudo à beira do apertar de um botão
Explosão
Por hora, só de conservadores sem noção
É que sem um carinho ninguém segura esse rojão
E saiba logo, cidadão
É muito chão
Muito vão
Aporrinhação
Circo, pão, leão, multidão
Muita contra-mão
Muito rojão
Mas tem São João
Carnaval, aniversário e feriadão
Só não tem milagre não
(Talvez esse milagrosa conexão)
É você que cria sua condição
Sempre há opção
Respeita as mana, as mina, as mona e qualquer outra variação
Faz com amor e nada é obrigação
Façamos a Revolução
Alguns verão
Outros não
Mas saboreies do inverno ao verão
Tenha sua versão
Tenha seus versos,inversos, amigos e um vinho Canção
Brade cada canção
Entenda a construção
Pratique a desconstrução
E quando cansar a mão
Ame
Ame mais
Ame sempre, João...

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Sobre ser pai 6 ou 2 anos de Ana

São dois anos de Ana
É tanta energia que ela emana
Que papai desencana
E se joga na pixxxta...

O segundo ano é um processo entre o bebê e a criança. Basta andar e tá lá, eles são do mundo. Também vem o falar, também feito de tropeçar. O fazer birra. O não.
- Sim.
- Não.
- Sim.
- Sim?
- Não.
Vieram as aulinhas, a escola, as coleguinhas, as festas de criança. Mais uma festa da Ana. Ela tá melhor que eu de festa.
E agora ela é uma criança.
Já vinha sendo, mas vai sendo cada vez mais. E eu sinto falta do meu bebê. Daí vou vendo em mim essa tristeza satisfeita dos pais, que anseiam por si, mas sentem cada milímetro do espaço do mundo entre eles e a cria.
E aprendo com isso. Ser pai como ser professor é um ininterrupto aprender. Coisa de quem quer estar, mais que ser. Mas a Ana não é uma mestra paciente. As boas que tive nunca o foram...
Ainda assim, a gente brinca. Sofremos juntos, cada qual no seu papel, nas gripes e resfriados.
Sou feliz que ela dança. Não posso desejar nada mais lindo a alguém do que dançar.
Na hora de dormir, ela me obriga a cantar uma música incontáveis vezes. Estamos numa fase Nana neném, que me cansa porque é pequena e repetitiva. Eu prefiro Se essa rua fosse minha. Mas o 
- NÃO!!! - ...é retumbante como um trovão...
Ana ama dinossauros. Papai da Ana ama dragões. Estamos trabalhando nisso.
Ela já identifica o escudo do Flamengo e beija. A alegria de ser rubro-negra.
Ela tem 63 livros. Quantos livros você leu esse ano?
Às vezes, eu me perco na casa da Ana...
E já já vem a Lia...









terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Sobre ser pai 5

Domingo chegamos de viagem. Já era noite, Ana não dormiu no voo e estava bem cansada. Mas eis que chegando em casa, ela reconheceu o lar. Foi aos brinquedos da sala e esparramou todos, pegando um por um. Depois foram os livros. Pegava, trazia até mim e pedia que eu mostrasse.
- Esse! - Ela gritava com entusiasmo.
Depois foi a vez de tudo que estava no quarto.
Eu adoro viajar, mas assim como minha filha, adoro voltar pra casa...

Há alguns anos eu já não tinha entusiasmo pelo mar. Praia pra mim era cerveja, sombra, petiscos e um livro (ou trance... rs). Esse ano eu entrei no mar praticamente todo dia. Algumas vezes, cinco vezes no mesmo dia. Sentei na beirinha. Medi o ritmo das ondas com os passos da Ana. Tomei onda na cara pra ela passar por cima. Pedi desculpas a Iemanjá para apresentar minha criança.

Já são 1 ano e 8 meses de encantamento, 1 ano de parceria entre nós dois desde o fim da licença da Dé. Em fevereiro, ela começa na creche e eu tenho que terminar minha tese, mas o maior projeto da minha vida segue a pleno vapor...

segunda-feira, 9 de maio de 2016

1 ano de Ana ou sobre ser pai 3...


Há quem diga que o tempo voa...
Eu te diria hoje, pessoa amiga
Que ele engatinha e já ensaia libertar-se bípede por aí
Ainda carece de apoio
E de apoio carecerá por muito tempo ainda...
Não carecemos todos nós?

Mas minha pequenina forma do tempo está cheia de graça
Há mais magia por onde ela passa
Em tudo que ela faça
Precisas ver como gira o mundo quando um bebê te abraça
Pousa a cabeça no teu ombro
É como se virasse castelo a ruína
Nuvem, o escombro
Tudo que faz minha menina
Me fascina
Me desatina
Me causa assombro

Se ela concatena dois sons
Se ela vacila no ar tentando se equilibrar
Ou simplesmente consegue se virar
E os pés pousar
No piso marrom
Para ela é tudo bom
E eu a admirar
Essa vida ainda sem tom
Para ela é magnífica qualquer melodia
Seja uma cantiga do dia-a-dia
Ou a repetida galinha pintadinha
Sei que se em mim ela se aninha
Até essa tormenta que nos envolve
E o pior que se avizinha
Se dissolve
Se dissipa
E eu só penso em ensiná-la a soltar pipa
A nadar, ler e sonhar
Em fazer dela uma pessoa ímpar
Mas é ela que vai me fazendo seu par
Seu pai
Algo em mim mudando vai
Aprendendo
Florescendo
Nas minhas fissuras
Criando remendos
Pois pra tantas aprendizagens duras de outrora
Essa aurora
Trás novas juras
Novas curas
Tantas canduras
Que o mundo afora se admira com meu encantamento...

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Sobre ser pai 2



Já são 6 meses de Ana. Quanta Ana. Não há mais sem Ana. Todo dia, toda semana. Enquanto ela cresce veloz, alarga-se a foz do rio de minha vida. Há cores novas antes indefinidas. Há partituras novas, que antes eu via, mas não podiam ser lidas.
Me encanta. Toda essa vida que há em Ana. Que há em nós. A vida não é plana. Não é plano. É mundana. É infinita nas possibilidades. Nas ciladas da cidade. No desembestar da mocidade. Da mocinha que dorme, não quer comer, adora árvores e ri com as alturas.
Árduos são os percalços. Nada é natural. Tudo é experiência. De se equilibrar uma cabeça a engolir um alimento. Mas saborosas e entusiasmantes são as vitórias. Os sorrisos. Nem todo mundo arranca os sisos. Nem todos estão indecisos. Alguns apenas sorriem antes que o mundo leve isso.
Tais glórias não lembramos na fábula, apenas no gesto. Daí que me empresto, me envolvo, me entrego, me apego, pormenores resolvo. É como ter oito braços de polvo. Havendo tempo para o encanto, para saborear, é sabor ímpar. Brincar no banho até a pele enrugar.
É tanto que parece nosso o pranto. Antes fosse. Pudesse fazer tudo ser doce, racionalmente não faria, pois se a vida desvaria, precisa de tropeço. E eles estão por aí desde o começo. É o preço. Da vida. Mas Ana a deixa mais colorida. Cor de cenoura, beterraba, feijão, arroz, espinafre e frango, tudo batido no processador. Papa.
Papai.
Sou...

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Ana



Ana de que?
Só Ana
Mesmo que tanta Ana
Haja em você
Ana pé de cana
A mãe não gostou
Insana
Mundana
Interplanar Ana
Não encana
Minha filha
Que a altura do voo
Depende só da sua pilha
Você que faz a trilha
A gente só assiste
Enquanto você se dana
Torna a vida menos plana
Os parafusos espana
Ama beltranos e ciclanas
Viveres afana
Mas agora você só nana
Chora com gana
E seu pai bestamente se apaixona...

quarta-feira, 14 de maio de 2014

À minha filha que não vai nascer

Hoje, dois irmãos, uma menina de 13 e um menino de 9 morreram queimados na Ceilândia por conta de um sujeito que alega uma dívida do irmão mais velho delas.
Uma mãe e a filha pequena morreram por conta de um bêbado no trânsito. Tá na capa do Correio embaixo da Monstra no banheiro dos fundos.
Aquele médico que esquartejou a amante em 2003 vai ser julgado de novo. Ele tava em liberdade.
Mataram uma mulher por um pacote de biscoito.
Linxaram uma mãe por ser uma "bruxa" que sacrifica crianças.
Bárbaros, meu filho?
Não... humanos.. como você seria, minha filha. Damasiadamente humanos.
A vida é violenta. Um pega pra capar sem fim.
Um aluno morto.
Um pai de alunas assassinado.
A antiga vizinha que definha.
O Leitão.
O Jair Rodrigues, que era só alegria.
O amigo da mãe subitamente em um festival.
A vida tem o compasso da morte, Joana.
Desde o início.
A morte é minha personagem predileta.
Não por ser doce, nem por ser bala.
Por ser inevitável...
Mas a vida não é bem durável
É um sopro
Um suspiro
Um assobio
Um delírio.
Que vale a pena
Mesmo se não plena
Helena
A passagem terrena
Compensa
Por mais curta que seja
Obrigado, querida
Pois a vida se dá enfrentando a morte.

sábado, 26 de abril de 2014

Sobre ser pai


Pelo sol que me guia
Do grego, Hélio
Vos digo
Tenho comigo
Que é um perigo
Como nenhum outro
Como uma viagem
Da qual muito se ouviu falar
Vistes as fotos
Ouvistes as histórias
Das vitórias nas glórias mais simplórias
O nível é árduo
Mesmo que se narre um padecer doce
Do videogamezês, modo hard
Mas profícuo
Ver na vitória dos mais tolos desafios
A apoteóse singela
Sei disso
Sou professor
Mestre em propor narrativas
E senhor de minhas responsabilidades
Mundanas ou insanas
Tenho agora esta
Intensa como nenhuma outra
Pois trabalhar com potencialidades
Tem um ímpar sabor