sexta-feira, 2 de julho de 2021

Festim para o finado Fauno


Sendo o seu umbigo o centro do universo

O rio do meu verso só faz correr pro seu mar

Nesse transversar já assim ao acordar 

Vai a boca buscar passear na possibilidade de te mapear

Contorno firme como o da mão a apertar

Como a volúpia que arrepia ao se entranhar

Daí aperto a tela com o cuidado de quem toca o grelo,  pois ao fazê-lo,  é como tê-lo, entre os dedos

Me deleito

Me entrego

Desassossego até o próprio desassossego e faço,  refaço,  trespasso

Esse nosso laço

No teu regaço

Mergulhado

Até o talo da alma

Como se fosse o falo

Melado na tua calma

De me dominar por inteiro

De grudar meu terreiro

De percorrer com os lábios

De esquecermos de ser sábios

Nesse sábado

Colados e fadados a explodir a própria realidade na terra encantada de nós dois... 

Onde todo depois já é certeza alada

Daí saltam as palavras

Rebolativas e safadas

Prontas pra serem emissárias das semânticas sangradas e sagradas de nós dois...

terça-feira, 1 de junho de 2021

Carta para Hélio Lopes




 Oi pai, como você vai? Desde que você se foi, tanto segue o que dói, quanto se agrava o que já não dava. Tanta batalha por aqui ainda se trava, o fascismo descarado da gente brava, desfizeram tanto daquilo pelo que você lutava. E ainda tem a pandemia. Estamos chegando a 500 mil mortos, pai. Tio Ari se foi. Tá aí né, no amor e na memória. Tanta gente. Nossa sociedade derrapa. Nunca avança, a voracidade egoísta e cruel da elite não cansa, o povo balança e nem tem mais carnaval. E a dor da gente não sai no jornal. O Brasil segue esse imenso canavial, ceifando os boias-frias, queimando a monocultura que já serve pra matar a natureza que havia. Enfim, tá tudo um caos. Nosso país desigual não disfarça mais a própria sede de sangue. Nada de novo, mas com requintes de crueldade, sabe...

Ana e João vão bem. Hoje é aniversário do Gustavo. Seus netos são incríveis, aquelas potencialidades que só na vida cabe. As crianças existem para que os adultos possam lembrar como era sonhar. Por conta da pandemia, sigo nessa rotina de 24 horas por dia todo dia com as crianças. Confesso que cansa. Alfabetizar uma criança é tarefa árdua. Ainda mais com trabalho, cuidando de casa. Fazendo muita vídeo aula, tentando não fazer ecos para as frustrações que gritam. Dé sobrecarregada com a condição de médica nesse armagedom. 

Mas eu tô começando o trabalho aqui na antiga escola classe da 107. Todo mundo da família tá se amarrando. Me passando muita memória e muita história. Tô começando lá mais algumas micro revoluções. Tem sido difícil esse êxodo desde a militarização, esse desterro, essa errância. Levo em mim essa crise que se perturba ainda mais de perceber que a tempestade não assenta, não há perspectiva de olhar. Seguimos sentindo, saudosos de dançar.

Saudades do seu abraço, pai. Saudade de ser filho e achar que tudo vai ficar tranquilo porque seu pai tá ali pra te salvar.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

O verdadeiro encontro entre Saturno e Júpiter


 - Aí está você.

- Sempre estive aqui, nesse mesmo caminho que só pode ser o meu.

- Caminho que tomou de mim. Como tomei de seu avô.

- Nada disso. Eu rompi a sua lógica. Eu sou o novo. A liberdade. Você era estagnado. Não sabia como lidar com o mundo que tinha diante de você. Nós sempre fomos completamente diferentes.

- Se você prefere continuar pensando assim. Isso não mudou eras atrás, não mudará agora, pois tudo permanecerá do jeito que tem sido. Já dizia Gilberto Gil.


- O novo sempre vem diria Belchior.

- Sempre mais do mesmo digo eu mesmo. Bebida?

- Como aguentar isso se não?

- Fumaça? Amores? Abraços? Os refúgios seguem os mesmos oásis na vastidão do Saara. O que temes é perceber que não há paraíso a alcançar. Não há universo a salvar. Não há verso que conserte a assimetria do dilatar. Errantes a errar, como antes, até tudo esfriar.

- Você tagarela como se não pudesse contemplar tudo que fizemos. Cada pequeno grão estruturando essa magnífica sinfonia. Tanta luz. Tanto movimento. A dança. Uma obra única, apoteótica e sublime, possível com sua expulsão, seu ocaso advindo da vida carecer de dinâmicas, potências, calores e desejos.

- Como se não houvesse tudo isso no meu tempo. Aqui está você fruto de meus calores, não é mesmo?

- Você devorou meus irmãos e pretendia me devorar para manter as coisas como estavam. Você sempre pensou apenas em você mesmo.

- E você não?

- Eu libertei minhas irmãs e irmãos, salvei nossa mãe, povoei o mundo e organizei os espaços divinos. Embora seja uma conquista que precisa ser reeditada a cada dia, seguimos. Tudo isso graças a mim!

- Foi uma longa guerra a nossa. Mil anos é tempo mais que suficiente para discutir. Talvez nesse breve encontro, possamos tratar de outras coisas. Como vão suas crianças?

- Cresceram bastante. Já possuem suficiente vontade própria. Seguem seus próprios caminhos. Juno tem trabalhado muito e estou sempre a olhar por eles. 

- Gostaria muito de poder estar com eles e testemunhar seu desenvolvimento. Dizem que ser avô muda tudo.

- Muda mesmo. Mas temo que você os achasse apetitosos demais...

- Isso foi uma piada? Parece que estamos progredindo.

- Quanto mais progredimos, mais nos afastamos. É o movimento com suas inexorabilildades.

- O progresso é apenas mais uma ilusão. Mais uma história bem contada a povoar de quimeras os corações dos tolos ansiosos por sentido. Melhor dançar com os astros.

- Mas a mudança é a única certeza imutável.

- As certezas são tão dignas de confiança quanto as Parcas. Elas te prometem um fio, enquanto seguram um novelo. Devo seguir. Centenas de anos se passarão até vê-lo de novo. De um forma estranha, sinto orgulho de você.

- Eu sinto apenas alegria por tê-lo superado.

- Parabéns, meu filho, parabéns. Seguimos. Eu com minha dança, você com seu caminho.

- Poderia ter sido diferente?

- Está sendo em cada pode ter sido. Não é o tempo ou o espaço, mas a forma com que é tecido.

- É muito. É mito. Minto se muto. Mato morto. Marco muros. Murros. Mundos. Mandos e mantos não movem moinhos. Sangro. Cancro. Esquartejado por mim. Para todos.

- Eu sei. Eu sigo...



domingo, 1 de novembro de 2020

Fim

 Acabou

Para ela bastou

O mar secou

Me esqueceu

O camafeu

Quebrou

Soltou

No chão

Sem perdão

Sem ponderação

Sem outra opção

Desfez

Os porquês

Eram de menos

Pequenos

Ingênuos

Terrenos

Humanos

Meros planos

De um insano

Sozinho

Em seu mundo mesquinho

Tanto espinho

Tanto pranto

Espanto?

És pranto

És...

sábado, 8 de agosto de 2020

Sobre ser pai 8


Ser pai é coisa profunda

É limpar a bunda

Escovar o dente

Saber que tudo depende

E, de repente,

Ensinar a ser independente

Abraçar quando a dor for pungente

É esperar ali logo em frente

É torcer pela gente

Proteger da parte imunda

Explicar que maravilhas abundam

Mas que na tormenta

Os mais fracos que afundam

Que a gente tenta

Mesmo se tudo mais desalenta

A gente enfrenta

Se reinventa

Espera

Que uma hora a poeira assenta

A parada é lenta

Mesmo com a barulheira frenética

Dança

Tudo balança

João nunca cansa

Ana também

Mas colo sempre cai bem

Aprende a dividir esse trem

Irmão é a companhia mais longa

Nessa tonga da mironga

Irmandade vai bem

E à paternidade convém

Serenar furacões

Adoçar os limões

Sorrir aos borbotões

Voar com os dragões

Decorar as piores canções

Brigar em algumas situações

Problematizar sempre que houver opções

Sabendo como a gente está amarrado

Não pelo fio

Mas por esse querer bem alado

Que mesmo depois que o pai parte

A gente sente que tá lá...

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Sem título 2

Dói
Corrói
Horror de mil sóis
Sois
Oras pois
Horas
Eras
Heras
Erínias
Errôneas
Harpias
Arpões
Há pães
Pois
Pais
Mães
Sem paz
Só pois
Depois
Demais
De maios
De meios
De medos
Descalços
Decalques
Recalques
Recados
Riscados
Rincados
Rispidamente calados
Cansados
Cancreados
Caricaturados
Concomitantemente
Cacos
Cá
Cal
Sal
Só
Sim
Super
Sempre
Isso...

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Sem título 1

Eu tenho olhos tristes e cansados
Eu te olho, triste e cansado
Te molho, riste e casado
E colho isto calado
Encolho tocado
Olho todo
Outro
Dó
Dou
Ó
...

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Carta para Hélio Lopes


Salve Negão... feliz aniversário, desculpe o horário, mas o mundo está todo ao contrário. Uma mega pandemia de um vírus da gripe tomou o país e o mundo. Já morreram 30 mil pessoas só no Brasil. Um mundo em quarentena fazendo o vírus humano perceber a sequela ambulante que é. Nem todos, claro. Você estaria com 71 xingando bastante.
Estamos todos confinados em casa. As crianças tendo aula pela internet, eu ainda por resolver as questões na escola nova, onde mal cheguei e veio a interrupção das aulas. Estou meio em lugar nenhum, mas passando muito tempo com a Ana e o João. Eles são incríveis. Hoje, o Gustavo já tá fazendo 2 anos e seus três netos vão muito bem. Dé tem trabalhado horrores com isso tudo.
O fascismo saiu do armário e os idiotas já não são tantos, mas os canalhas cruéis são em número muito maior do que eu pensava.
Meu peito tem doído, meu jeito tem arrefecido, não que tenha desistido, mas sinto que entre tanto que podia ter sido, certos espinhos são muito doloridos. Saudade, pai. Muita saudade. Queria um colo pra estar protegido. Queria me sentir salvo como no refúgio que ofereço aos meus pequenos. Eles tem um pai incrível. Um pai amoroso e dedicado que brinca pra todo lado, que da bronca, chora e fica frustrado. Um pai que os faz voar e está sempre a acompanhar tombos e risadas. Um pai que aprendeu muito mais do que pensava com o pai mais incrível que existiu.
Voltando ao Brasil. Suspenderam tudo, mas o Sistema segue matando. Um policial branco matou um homem negro nos EUA. George. Acendeu o estopim. Entornou o caldo. Foi a gota dágua. Aqui a intervenção sem fim é de policial matando adolescente no morro com tiro de fuzil pelas costas. João. Nada vai mudar. Eu sinto. Mas lutamos por não saber como não lutar. Cuidamos nessa resistência que somos com nossas táticas das pequenas coisas.
Mas te digo, nunca estive tão triste. Tão precisado de um abraço.
Ano você... desculpa as poucas palavras. Nunca haverão palavras, sintaxes e fonemas suficientes para dar conta desses quase 10 anos de falta que você faz. Obrigado por tudo.
Você segue sendo incrível.
Amo você.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Édipo em Colono

Perdido, cego e errante
Cá estou
Outrora rei
Édipo rei
Dito rei
Desdito
O mito
Nada mais fito
Ferido pela cegueira de outrora
Largado mundo afora
Com essa dor que me devora
Vendo a cada hora
O caos em que o mundo jas agora
De Antígona e Ismênia sei
Eteócles e Polinices me faltam
São sempre os machos quem assaltam
Maltratam
Desprezam e atacam
Pobre das mulheres que amei
Cansei
Depois de tudo que passei
Erínias sangrando meus passos
Moiras traçando no meu fio, laços
Desvarios
Do filho de Laio
Jocasta
Nada basta
Nem a besta
Esfinge
Esta ao menos não finge
Sangrada minha carne
Plantou a semente da morada
E em mim vive esse nada
Essa tortura infindável de quem riu da sacada
Do destino
Mas desde menino
Já tinha sua sorte traçada
Preso, ao menos, não mais me sinto
Nem santo
Só pranto
Nunca pronto
Sempre meio tonto
Desponto
Desperto
Incerto
Disserto
O peito aberto
E alerto
Num conto
Meu canto
Que é tanto
Espanto
Nunca, nunca pronto
Remonto
A Tebas
A Corinto
Aqui em Colonos
Em toda parte
E em nenhum lugar
A fortuna há de estar
Nesse oráculo de desgraça por se espalhar
Nesse caos interminável de mar
Que fingem saber os aedos
Nos governam os medos desde cedo
Mas é tarde
No apagar da chama que arde
Enquanto o pano poido que somos se encarde
Desfeito
Um fio de cada jeito
Um frio leito
Só, respeito
E um esvaziado peito
Está feito
Feito está...

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Tudo que você precisa

Tudo que você precisa
Não é a atenção
De uma multidão
Ou mesmo a badalação
A marejada brisa
Independente de onde pisa
Com quem sua a camisa
Que faz diferença
Aquela gente que compensa
Que tem a alma imensa
Pega tudo aquilo que te prensa
E em um rodopio
No abraço
No incomensurável desvario desse laço
O mundo de aço
Inoxidável
Fica amável
Fica leve
Por mais que seja breve
Um sopro
Nunca mais eu vou dormir
Pero no tropo
A vida vai vir
Nunca deixa de seguir
Te envolver até subsumir
Lutar, conter o mar e emergir
Daí que a gente se atreve
E veve
Volve
Dissolve
Dissipa
Um ano
Uma década
Uma vida
Tanta lida
Pranto lido
Parcos tidos
Barcos todos
Palcos bobos
Abraços bons
Bençãos
Abrigos que levo comigo quando persigo o perigo
São
Tudo que eu preciso