Hoje, dois irmãos, uma menina de 13 e um menino de 9 morreram queimados na Ceilândia por conta de um sujeito que alega uma dívida do irmão mais velho delas.
Uma mãe e a filha pequena morreram por conta de um bêbado no trânsito. Tá na capa do Correio embaixo da Monstra no banheiro dos fundos.
Aquele médico que esquartejou a amante em 2003 vai ser julgado de novo. Ele tava em liberdade.
Mataram uma mulher por um pacote de biscoito.
Linxaram uma mãe por ser uma "bruxa" que sacrifica crianças.
Bárbaros, meu filho?
Não... humanos.. como você seria, minha filha. Damasiadamente humanos.
A vida é violenta. Um pega pra capar sem fim.
Um aluno morto.
Um pai de alunas assassinado.
A antiga vizinha que definha.
O Leitão.
O Jair Rodrigues, que era só alegria.
O amigo da mãe subitamente em um festival.
A vida tem o compasso da morte, Joana.
Desde o início.
A morte é minha personagem predileta.
Não por ser doce, nem por ser bala.
Por ser inevitável...
Mas a vida não é bem durável
É um sopro
Um suspiro
Um assobio
Um delírio.
Que vale a pena
Mesmo se não plena
Helena
A passagem terrena
Compensa
Por mais curta que seja
Obrigado, querida
Pois a vida se dá enfrentando a morte.
"O objetivo principal não é descobrir, mas refutar o que somos. (...) Não é libertar o indivíduo do Estado e de suas instituições, mas libertar-nos, nós, do Estado e do tipo de individualização que vai ligada a ele. É preciso promover novas formas de subjetividade..." Foucault
quarta-feira, 14 de maio de 2014
sábado, 26 de abril de 2014
Sobre ser pai
Pelo sol que me guia
Do grego, Hélio
Vos digo
Tenho comigo
Que é um perigo
Como nenhum outro
Como uma viagem
Da qual muito se ouviu falar
Vistes as fotos
Ouvistes as histórias
Das vitórias nas glórias mais simplórias
O nível é árduo
Mesmo que se narre um padecer doce
Do videogamezês, modo hard
Mas profícuo
Ver na vitória dos mais tolos desafios
A apoteóse singela
Sei disso
Sou professor
Mestre em propor narrativas
E senhor de minhas responsabilidades
Mundanas ou insanas
Tenho agora esta
Intensa como nenhuma outra
Pois trabalhar com potencialidades
Tem um ímpar sabor
segunda-feira, 31 de março de 2014
Ditadura
Nós não precisamos de outra ditadura militar. Mas a ditadura não acabou, mesmo que não seja mais milíca, mas tenha milicos ocupando a Maré. Segue a ditadura do Estado e dos modos de ser ligados a ele. A ditadura do consumo desenfreado. A ditadura da lógica bitolada. A ditadura do falar muito e fazer pouco. A ditadura hierarquizante... sexista... racista... ela continua te dizendo como deve ser. E você continua jogando o jogo da guerra sem poder vencer. Ou não. Tem quem faça diferente. Mas esse gente inconsequente lembra a toda gente, que a lombra é mais profunda. Que a ditadura ainda abunda, nas microfísicas dos poderes... na ordem dos discursos... nas pesquisas de opinião e dias comemorativos...
http://planodeaulasdehistoria.blogspot.com.br/2014/03/porque-nao-precisamos-de-outra-ditadura.html
quinta-feira, 20 de março de 2014
Outono
Outono
Ou tino
Ou trono
Ou tonto
Ou tanto
Ou tento
Ou tinto
Ou tô no
Ou tamo
Ou tramo
Ou tremo
Ou te amo
Ou te chamo
Ou temo
Outrém
Ou ontem
Ou tem
Out
Ou
O
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Do que só é
Por favor
Por amor
Que o fervor
Desse ardor
Desse ardil
Do olor
Do sabor
Do frescor
Por fervor
Por ser mil
Estupor
Sim senhor
Sem pastor
Soa motor
São doutor
São doril
Tem a dor
Tanta dor
Tonta dor
Tantra dor
Tirinta dor
Tirinta amor
Tentador
Tinta e cor
Cortando meu eu com tantas semânticas
Desenhos perenes no meio do nada
Vertigem
Miragem
Fingem
Bobagem...
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Segunda Fábula Segundo Se...
(Por ali estava o menino. Ali, o menino e seu desatino. Talvez fosse obra do destino.. talvez não. Mas estando ele ali ao nível do chão, seguiu com a procissão até ter uma ímpar visão. Viu, o tal menino, em meio ao turbilhão, um sábio, consultando o astrolábio, lendo os astros e decifrando os meandros da criação...)
- Oi...
- Pois não? Diga logo menino, o que queres saber, ó pequenino.. pois meu tempo é curto e posso ter um surto se me demorar com o que tens a perguntar..
- Ah bom.. bem.. tá bom.. eu nem ia perguntar.. mas já que o senhor falou assim tão bonitinho.. bem.. o que é a felicidade?
- A felicidade é um estado!
- Que nem Minas Gerais?
- Não, não, pequeno órfão.. a felicidade é um estado, como quando quero dizer uma situação.. e por isso mesmo ela nunca é, ela só está!
- Ah tá.. que nem quando a professora fala pra mim.. "sua situação não tá nada boa.."?
- Bem.. mais ou menos.. talvez o entendimento não tenha sido pleno.. façamos assim.. felicidade é um estar sereno como quem caminha num jardim.. e tendo passado o último jasmim, já não mais é.. apenas estava.. restou fé e saudade, mas isso não é nem a metade sequer...
- Então a gente só pode ser feliz quando já passou?
- Assim é pra maioria.. presos no frenesi do dia-a-dia.. pensando sempre no que deveria, enquanto sente o estômago queimar de azia.. mas há quem curta o passeio e a companhia.. mesmo sem saber a que veio, não segue a esteio e para ter paz, faz...
- E como faz?
- Só se se sabe fazendo.. não tem remendo.. conforme vai vivendo, há que crescer o querer desse viver.. ou simplesmente é como os demais que vão esmorecendo.
- Eu vou crescer bastante e ser bastante feliz.. estar bastante feliz.. sei lá... (disse o menino sem nada entender, vendo que o estranho velho já não estava, como se pudesse desaparecer, escafeder, entre toda aquela multidão brava, que passava, sem dar-lhe nenhuma atenção..) Fé em mim há.. e um mar por alcançar...
- E como faz?
- Só se se sabe fazendo.. não tem remendo.. conforme vai vivendo, há que crescer o querer desse viver.. ou simplesmente é como os demais que vão esmorecendo.
- Eu vou crescer bastante e ser bastante feliz.. estar bastante feliz.. sei lá... (disse o menino sem nada entender, vendo que o estranho velho já não estava, como se pudesse desaparecer, escafeder, entre toda aquela multidão brava, que passava, sem dar-lhe nenhuma atenção..) Fé em mim há.. e um mar por alcançar...
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Estradas e Universos
Voltei da Universo
Juntei o disperso
E através do meu verso
Te conto o interno representacional inverso
Paralelo
Faço um elo
Para travar o duelo
Em um dançante castelo
Ladrilhos amarelos
Pro nosso valsar
Começa com um par
Depois é só multiplicar
Pois cada pessoa ressoa
Faço um elo
Para travar o duelo
Em um dançante castelo
Ladrilhos amarelos
Pro nosso valsar
Começa com um par
Depois é só multiplicar
Pois cada pessoa ressoa
E o tempo é coisa atoa
Tal a imensidão do mar
Mas o jogo é de pés na areia
Um mundo colorido
Digamos uma aldeia
Enquanto a noite alteia
Caímos na teia do indefinido
O cabelo serpenteia
Os sentidos são invertidos
E me dê o embalo
Se sabe do que falo
Do mundo onde tudo pode ter sido
A hecatombe de um abraço
A delícia da apoteóse para qual nasço
Um beijo
Um elogio'
Um delírio
Um mundo mentolado
Um transe
Avance
Não há como ficar parado
De ar vibrante e água gelada
Se faz o oásis dessa enseada
As energias para a jornada
Que a estrada tem buracos
Mas traçamos arcos
Nos rastros das nossas asas
Tal a imensidão do mar
Mas o jogo é de pés na areia
Um mundo colorido
Digamos uma aldeia
Enquanto a noite alteia
Caímos na teia do indefinido
O cabelo serpenteia
Os sentidos são invertidos
E me dê o embalo
Se sabe do que falo
Do mundo onde tudo pode ter sido
A hecatombe de um abraço
A delícia da apoteóse para qual nasço
Um beijo
Um elogio'
Um delírio
Um mundo mentolado
Um transe
Avance
Não há como ficar parado
De ar vibrante e água gelada
Se faz o oásis dessa enseada
As energias para a jornada
Que a estrada tem buracos
Mas traçamos arcos
Nos rastros das nossas asas
terça-feira, 5 de novembro de 2013
O Sistema
- A vida é séria e a guerra é dura.
- Quem disse?
- O Sistema!
- Você é o Sistema?
- Não, mas cheguei aqui graças a ele.
- E agora você reproduz o que ele te ensinou?
- Eu reproduzo o que eu penso.
- Entendi. É boa essa vida?
- Vai ser perfeita quando você chegar lá...
- Lá onde?
- ... No final, oras...
- Mas no final não acaba?
- Sim, acaba.
- Então você não aproveita muito mesmo... me parece melhor aproveitar agora mesmo...
- Que pequenez de espírito.
- Meu espírito é amplo e leve... e o futuro é sempre uma ideia.
- Você tem que pensar na sua família, nos seus pais, nos seus colegas, nos seus amigos, nos seus conjugês, nos seus patrões, nos seus calvários. Como vamos ter um futuro melhor? O que será do Brasil? Cade o seu sacrifício? O Sistema vai te esmagar se você sair por aí achando que faz o que quiser...
- Eu devo temer o Sistema?
- Todos temem o Sistema.. até os que não sabem dele.. eles só dão outro nome...
- Entendi. Que cada um conserve seu medo... mas como eu disse, vou seguindo...
- Você não pode escapar do Sistema!
- E de você?
- Querendo ou não, você vai enfrentar o Sistema e se dobrar a ele. O seu ser só será através dele! Não há para onde correr!
- Você disse que chegou aqui graças ao Sistema.
- Sim!!!
- E se eu te disser que você chegou aqui apesar do Sistema?
- É quase o mesmo. Mas está errado. Pois sem o Sistema, eu seria como um homem das cavernas primitivo e subdesenvolvido, incapaz de expressar as pulsões do meu ser.
- Digamos, diferente. E seria... é que ser, vem de nós e não do sistema.. são nossas as táticas, as apropriações, os molejos, as resistências, os borogodós... mas o sistema só quer saber de perpetuar-se e não dos passageiros. Ele vende essas verdades e você compra e vende sem pensar.
- Você é um vagabundo.
- Você só é aquilo que aceita ser, por mais usos indevidos que isso tenha. O sistema não me convenceu até hoje e não é um arauto tão despreparado que vai me convencer...
- Eu falo o que o Sistema falaria. Meu pensamento está respaldado pela realidade, por Deus, pela família, pela pátria, pela necessidade, pelos meus filhos, pelo Homem, por amor, por desejo, por dinheiro, pela ética, pela estética, pela lógica, pela Razão. Você que é menor que todas essas coisas, só pode se dobrar ou se perder...
- Gosto de ser perdido.. todos os perdidos que o sabem gostam... eu diria que até os que não sabem gostam, mas seria puro achismo...
- Ninguém gosta de ser perdido!
- Quem disse?
- O Sistema! (Aquela palavras não encontraram ouvidos, pois o perdido havia partido sem deixar nem marcas.
Ele virou-se para o lado na estação, caminhou alguns passos e falou...) - A vida é séria e a guerra é dura!
- Quem disse?
- O Sistema!
- Você é o Sistema?
- Não, mas cheguei aqui graças a ele.
- E agora você reproduz o que ele te ensinou?
- Eu reproduzo o que eu penso.
- Entendi. É boa essa vida?
- Vai ser perfeita quando você chegar lá...
- Lá onde?
- ... No final, oras...
- Mas no final não acaba?
- Sim, acaba.
- Então você não aproveita muito mesmo... me parece melhor aproveitar agora mesmo...
- Que pequenez de espírito.
- Meu espírito é amplo e leve... e o futuro é sempre uma ideia.
- Você tem que pensar na sua família, nos seus pais, nos seus colegas, nos seus amigos, nos seus conjugês, nos seus patrões, nos seus calvários. Como vamos ter um futuro melhor? O que será do Brasil? Cade o seu sacrifício? O Sistema vai te esmagar se você sair por aí achando que faz o que quiser...
- Eu devo temer o Sistema?
- Todos temem o Sistema.. até os que não sabem dele.. eles só dão outro nome...
- Entendi. Que cada um conserve seu medo... mas como eu disse, vou seguindo...
- Você não pode escapar do Sistema!
- E de você?
- Querendo ou não, você vai enfrentar o Sistema e se dobrar a ele. O seu ser só será através dele! Não há para onde correr!
- Você disse que chegou aqui graças ao Sistema.
- Sim!!!
- E se eu te disser que você chegou aqui apesar do Sistema?
- É quase o mesmo. Mas está errado. Pois sem o Sistema, eu seria como um homem das cavernas primitivo e subdesenvolvido, incapaz de expressar as pulsões do meu ser.
- Digamos, diferente. E seria... é que ser, vem de nós e não do sistema.. são nossas as táticas, as apropriações, os molejos, as resistências, os borogodós... mas o sistema só quer saber de perpetuar-se e não dos passageiros. Ele vende essas verdades e você compra e vende sem pensar.
- Você é um vagabundo.
- Você só é aquilo que aceita ser, por mais usos indevidos que isso tenha. O sistema não me convenceu até hoje e não é um arauto tão despreparado que vai me convencer...
- Eu falo o que o Sistema falaria. Meu pensamento está respaldado pela realidade, por Deus, pela família, pela pátria, pela necessidade, pelos meus filhos, pelo Homem, por amor, por desejo, por dinheiro, pela ética, pela estética, pela lógica, pela Razão. Você que é menor que todas essas coisas, só pode se dobrar ou se perder...
- Gosto de ser perdido.. todos os perdidos que o sabem gostam... eu diria que até os que não sabem gostam, mas seria puro achismo...
- Ninguém gosta de ser perdido!
- Quem disse?
- O Sistema! (Aquela palavras não encontraram ouvidos, pois o perdido havia partido sem deixar nem marcas.
Ele virou-se para o lado na estação, caminhou alguns passos e falou...) - A vida é séria e a guerra é dura!
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Dano ou Estar
- Decidi escrever-te porque não mais aguentava pensar em você, precisava expulsar esses pensamentos de mim para o papel, para fora de mim, para algo alheio a nós dois...
(Ele parou. Levantou-se e deu três passos longos. Chegou até o som e ligou-o e apenas deixou tocar o cd que por lá já estava..)
- "The lunatic is on the grass.. the lunatic is on the grass.. remembering games and daisy chains and laughs.. got to keep the loonies on the path..."
(Tomou a taça na mão esquerda e tornou à leitura manual..)
- Muitas, tantas, inúmeras vezes as palavras me assaltam, me corroem, me impelem e dobram minha vontade com todo esse potencial limitante de percepções. Não me entenda mal, o problema não é você.. nunca foi.. nunca será. O problema sou eu.. sempre foi.. sempre será. É essa maldita besta insaciável que vive em meu íntimo, desejosa de banquetes apoteóticos a todo instante e desavergonhada de pedir, ainda assim, um 'teco' de qualquer lanche de outrém que lhe passe pela vista...
"The lunatic is in the hall.. the lunatics are in my hall.. the paper holds theirs folded faces to the floor.. and every day the paper boy brings more..."
(O papel ainda tinha o perfume dela. Era sempre inebriante e instigante aquele perfume, que para ele tinha um certo cheiro de kinder ovo.. ao mesmo tempo que conseguia invadir suas narinas, penetrar escorregadio pelo seu íntimo e atiçar suas partes. Bebeu vinho..)
- Por isso cheguei até você. Por isso preciso seguir o meu caminho. Sei que deve doer muito ler o que estou dizendo, mas tenho de ir para não me perder. Ficar seria dar algo de mim, que uma vez dado, me fará uma falta suprema. Não taxe-me de egoísta.. não que eu não seja.. sou sim, por escolha, inclusive.. mas não uma egoísta qualquer, sou egoísta pelo bem do equilíbrio universal. Posso jurar meu amor, mas não posso trair a mim mesma. Você que bebeu do melhor e do pior de mim, não irá querer ficar para ver o vinho tornar-se vinagre...
"And if the dam breaks open many years too soon.. and if there is no room upon the hill.. and if your head explodes with dark forebodings too.. I'll see you on the dark side of the moon..."
(O vinho já não desceu tão doce. Ele afastou a taça amarga, que agora mais parecia um réles copo de requeijão. Tateou o cinzeiro e retirou de lá uma ponta sobrevivente.. deixou a carta e acendeu-a. Deu uma longa tragada e a prendeu dentro de si, apenas para sentir a fumaça castigar seus pulmões. Não queria sentir nada de bom naquele momento..)
- Houveram tantos antes de você. Haverão muitos ainda.. eu espero.. pelo menos é como sempre tem funcionado. Mas nenhum como você. Como sei que nunca encontrará ninguém como eu. Não por sermos especiais. Simplesmente por sermos humanos. Demasiado humanos. Incomensuravelmente humanos.. mundanos.. fulanos e ciclanos...
"The lunatic is in my head.. the lunatic is in my head.. you raise the blade, you make the change.. you rearrange me untill I'm sane..."
(Soltou a fumaça, que já era quase ar. Seus sentidos inclinaram-se um pouco, mesmo que o mundo permanecesse na escuridão de sempre. Um mundo sem cores, sem curvas, ângulos e entalhes. Um relógio para ele era muito mais um tic-tac constante, do que um círculo numérico e cíclico. Uma carta era pra ele um ato quase sexual de desvendar um corpo com seu arguto tato.. e ela sabia muito bem disso...)
- Eu queria ter o direito de te dizer que sou sua. Mas seria mentira. E não que eu não minta.. minto o tempo todo.. mas seria leviano lhe retribuir dessa forma, seria como cuspir nos seus óculos. Um dia já acreditei que podíamos ter as pessoas.. hoje sei que podemos estar com elas e nada mais. E estar com você foi profanamente divino. Nunca ninguém me tocou como você. Muitos correram a mão pela minha carne, poucos pela minha alma.. nenhum antes, pelos meus medos. E sei que eu vi em você o que me ensinastes a ver de olhos fechados. Nosso retrato sempre ficará aqui guardado, num belo lugar do álbum, com menção honrosa.. entre o meu cão Gumercindo e um coleguinha de 2a série chamado Leonardo Matias da Silveira que me roubou o primeiro beijo que tenho lembranças...
"You lock the door.. and throw away the key.. there's someone in my head but it's not me..."
(O baseado findou-se, já quase lhe queimando os dedos. Largou-o de volta no cinzeiro transbordante sobre a mesa de carvalho pintada de tinta acrílica branca.. o branco sempre tinha uma textura diferenciada das demais. Largou novamente a maldita carta da maldita dama com suas malditas palavras. Levantou-se e foi até a janela. Eram cinco passos médios. Parou esticou os braços e o batente estava lá como devia. Abriu-a. Sentiu a brisa da noite, desejoso de que ela trouxesse um perfume menos embriagante. Veio apenas o cheiro da fumaça suja da cidade.. da urina feita nas junções entre o prédio e a calçada.. o excremento de pombos que recobriam o telhado.. as damas da noite, que no parque, ao longe, ondulavam ao sabor do vento.. pensou por onde estaria o mar...)
- Sendo assim, meu oráculo.. meu profeta.. meu apóstata.. meu espelho.. tenho de ir e já tendo ido, deixo este pedaço de mim transcrito para que nunca digas que não lhe dei nada. Sei sim que tanto recebi e tão pouco dei.. mas assim é a nossa natureza.. você é de dar, eu sou de receber.. e sou sedenta de muitas fontes.. sou como o mar, que precisa de muitos rios e da chuva e de sabe-se lá mais o que, para seguir em seu movimento de ir e vir. Quando nos encontrarmos novamente, sorria com carinho...
"And if the cloud bursts, thunder in your ear.. you shout and no one seems to hear..."
(Retirou as mãos do batente velho e já cheio de fissuras do tempo e levou-as até o cabideiro, ao lado, sempre ao lado, onde estava seu chapéu. Colocou-o sobre os cabelos longos como faria um gângster em um daqueles filmes antigos que ele nunca vira. Pegou o sobretudo, vestiu-o sentindo desde já o peso do que havia nos inúmeros bolsos.. caminhou os oito passos que o separavam da porta.. passos pequenos...)
- Ainda assim, sei que tens todo o direito de me odiar. Não o recrimino.. talvez ninguém me odeie mais do que eu mesma. Minha mãe sempre me dizia que eu era minha pior inimiga e não que eu devia tomar cuidado. Nunca fui do tipo cuidadosa mesmo. Mas que seja um ódio amável, ódio de querer arrancar-me do mundo e prender-me numa gaiola dourada, com boa água e alpiste da melhor qualidade. Certamente seria a mais bela gaiola de minha vida. E, ainda assim, contigo lá.. com água.. alpiste.. conforto.. vinho, poesia e boa música.. ainda assim, não seria a liberdade. Perdoe minha vaidade e minha vã idade, mas tenho pés inquietos, asas sangradas e braços abertos para receber muitas flechadas...
"And if the band you're in starts playing different tunes.. I'll see you on the dark side of the moon..."
(Pegou a bengala que sempre ficava junto à porta. Girou a maçaneta. Olhou uma última vez para mesa, onde não mais jazia a carta, que chegara ao chão levada pelo vento que vinha da janela, como se pudesse vê-la. Suspirou uma longa desilusão. O corredor o esperava com a luz que se acendia sozinha. Pensou se deveria chorar. Acabou por sorrir o sorriso de quem já chorou demais. Fechou a porta atrás de si e foi-se adiante pela escuridão...)
- Por isso tenho de ir.. sozinha.. avante pela escuridão. Até qualquer dia, até um dia qualquer, onde talvez eu não parta, onde talvez você não fique, onde talvez eu suplique por estar farta de tanta tolice. Agora só sei que preciso ser tola e nada mais.. até outro dia.. meu amor tão fulgaz...
"I can't think of anything to say except... I think it's marvellous! HaHaHa!"
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Deusa
Eu vejo a deusa em você
Como quem vê
A resposta de tudo
Como o deus galhudo
Devotado e mudo
Ao teu mundo
Desejo profundo
Eu te inundo
Mesmo que sejas o mar
E eu a gota
Vim navegar tuas correntes
Tocar tuas notas
Esquecido das rotas
És o todo à minha frente
O princípio, o precipício e o ofício
Desde o início
A primeira loucura do vício
Que até por isso
Vira o parâmetro de todo o resto
Não presto
Mesmo se meu todo empresto
São réles desdobramentos vazios do além-você
Efêmeros e funestos
Além-mar
Melhor seria estar
No teu útero, na tua cama ou nas tuas lágrimas
Teu oceano sagrado
Que nado
Ao nascer, devorar e deixar
Deusa das três fases
Faces
A me dominar
Eu vejo a deusa em você
E me ponho a mercê
De como vamos dançar...
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